domingo, 19 de julho de 2026

Bom Jesus dos Navegantes - José Calasans

 I

Meu Bom Jesus dos Navegantes,

tua procissão marítima de primeiro do ano,

estava grandiosa como tua glória;

Estava belíssima, numa combinação

de cores, que encantava a terra e o mar.

O céu ostentava algumas nuvens negras,

contrastando um profundo azul celeste,

que marcava a dimensão do infinito.

Não sei bem o que mais se orgulhava

da tua glória; se o céu, se a terra, ou o mar.

Parecia o mar. Ele estava passivo, domado,

sem nenhuma violência, como a paz da eternidade.

Deixava desfilar sobre seu dorso,

incontáveis barcos, botes e saveiros,

inúmeros navios, escunas e lanchas,

grandes e pequenas, a motor e à velas,

ora brancas ora coloridas, bordadas de bandeirolas,

formando um misto de cores, como se fosse,

misteriosa nuance da suprema luz divina.

II

A terra te oferecia o fértil regaço,

de inocente pureza e suprema ternura,

numa comunhão festiva de cores,

que longinquamente ou bem de perto,

cromatizava o casario da cidade,

suas montanhas e íngremes contornos.

Em destaque, para te homenagear, por certo,

lá estava, como contraditória imagem

de religiosa inocência e santíssima pureza,

o “Forte de Mont Serrat”, todo branco, alvo como leite,

elegantemente postado sobre um tapete verde,

que o rodeava e se quedava pelo monte abaixo,

bem em frente ao teu desembarque.

III

Fui visitar-te a céu aberto,

mas fiquei distante, sentindo-te n'alma


Sabes, Senhor, eu Ti vi imponente na galeota,

carinhosa oferta do povo de Deus.

Não te toquei, não te vi de perto,

mas, estive junto a ti, em espírito,

com a força da minha alma.

Senti um toque de tristeza e mágoa,

te confesso, quando olhei em volta

e não vislumbrei, como outrora,

aquela massa compacta de cabeças

e corpos humanos, de todos os matizes,

que se comprimia na praia,

serpenteando à distância do Canta Galo

à Boa Viagem, à margem do mar.

Então senti que o povo e só o povo,

não te glorificou como devia,

mas, logo me caiu sob o olhar,

um pé de acácias florido, repontando sobre um

telhado,

parecendo chuva de pétalas, para te glorificar.


Salvador, 01 de janeiro de 1989.

J. C. Souza Filho.


SOUZA FILHO, José Calasans de. “Bom Jesus dos Navegantes”. In: ______. Princípio ou fim? [S.l.: s.n.], 1989. p. 87-88.

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