Mostrando postagens com marcador Dique do Tororó. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dique do Tororó. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de março de 2016

O DIQUE DA BAHIA

No diadema de montanhas que ornam a cidade do Salvador, ha engastada uma formosa joia de que nunca soubemos aquilatar o valor, nem apreciar as bellezas nativas, porque as artisticas ainda ninguem lh’as accrescentou para lhe realçar o merecimento e as perfeições estheticas. Essa perola […] é o bellissimo lago que a próvida natureza collocou entre as colunas que margeam a cidade pelo lado oriental, e que o estrangeiro contempla admirado da sua natural formosura, e ainda mais do nosso indesculpavel despreso.

Tororó – do tupi – “Itororó” que quer dizer regado pequeno.
1908 - PMS/FGM - Arquivo Municipal de Salvador.

Lembramo-nos do dique, nome com que ha centenas de annos designa esse lago a população desta capital, não para o aformosearmos ainda mais, e para o convertermos em centro de goso e recreio publico, mas simplesmente para lhe pedirmos que nos mate a sêde com as suas aguas, que ora tranquillas reflectem como vasto espelho as encostas e a ramaria dos arvoredos marginaes, ora de leve encrespdas pela brisa da tarde, vão brandamente em minusculas ondas açoitar as ribanceiras por entre a folhagem sempre verde dos arbustos e dos juncaes.

1920 - http://www.cidteixeira.com.br/ 

O lago é graciosamente sinuoso, de largura variavel, e tem, mesmo agora, em alguns logares, uma profundidade superior a sete metros; a sua extensão é de cerca de dous kilometros, e já foi um pouco maior quando, ainda no meiado do seculo que finda, as suas aguas vinham até á Fonte Nova e á calçada da Fonte das Pedras. Por esse tempo a sua profundidade devia naturalmente ser maior dous ou mais metros do que a actual, pois que as aguas nivelavam-se quasi com o aterro ou muralha que no sitio chamado Moinho as impede de se precipitarem no riacho Lucaia, chegando mesmo a galgal-o nas fortes invernadas, corno ainda não ha muitos annos succedeu (5 de Junho de 1880) occasionando grandes inundações. Nesse aterro ha dous sangradoiros ou bueiros por onde se escoam as aguas excedentes ao nivel ordinario; as que saem por um delles moviam o rodizio de um moinho para cereaes, que ahi possuiu ha muitos annos, e não sei se estabeleceu prirnitivamente, o cidadão Francisco Ezequiel Meira, ha muito fallecido; este moinho passou successivamente a outros possuidores, e ainda lá funcciona, mas agora com intermittencias e com agua represada por muitas horas, por ser insufficiente, em virtude da sêcca, a que ainda corre por um dos bueiros para a calha do moinho. (1)

1923

Do lado da Fonte Nova, e em alguns pontos de uma e outra margem as terras arrastadas pelas aguas pluviaes, e por pequenos desmoronamentos das ribanceiras têm, no correr dos tempos, encurtado e estreitado o dique, concorrendo em grande parte para o mesmo resultado os entulhos com que alguns proprietarios de terrenos confinantes procuram amplial-os para cultura, sem que jamais as autoridades competentes procurassem obstar áquelles damnos fortuitos, e a estas usurpações intencionaes.

Adolpho Moreira de Oliveira, Dique do Tororó - 1928.

Pode-se dizer que o dique actual (porque houve outros menores que occuparam o leito da rua de Valla) está virgem de obras d’arte, mesmo das que poderiam efficazmeme impedir a progressiva diminuição da sua área; pelo contrario, tem-se permittido cercear a sua superficie com obras particulares, que o têm estreitado, privando-o em parte da sua antiga formosura.

Fonte: Câmara Municipal de Salvador.

O dique era outr’ora povoado de jacarés, que constituiam um perigo para as pessoas que se banhavam nas suas aguas; hoje são raros alli estes ferozes amphibios, si é que ainda se encontra algum desgarrado.

Outro perigo, segundo a tradição popular, é que, em certos logares, pessoa que caia nas suas aguas fica presa no lodo, e só depois de adeantada putrefacção sobe á superficie.

Houve um tempo em que a extremidade contigua á Fonte das Pedras, onde era diminuta a profundidade e firme o sólo subjacente, foi o logar de preferencia para lavar cavallos e banhar negros novos sarnentos; e numerosos outros pontos eram, como ainda hoje, frequentados por lavadeiras e banhistas. Estes eram quasi exclusivamente os usos das aguas do dique, pois sempre tiveram a reputação de não serem boas para bebida, e de produzirem sezões e outras formas de impaludismo.

1920. Fonte: SECULT/BA.

1935

O dique está ligado á nossa historia por diversos factos que convém recordar. Quanto aos primeiros tempos coloniaes pouco ou nada se sabe a respeito desta lagôa.

O proprio Gabriel Soares, aliás tão minucioso na descripção desta cidade, nem sequer menciona a sua existencia no seu famoso Tratado descriptivo do Brasil (1587); isto será devido, talvez, a que a cidade nesse tempo era limitada á actual freguezia da Sé. Elle falla apenas de uma ribeira d’agua que nascia na horta do mosteiro de S. Bento, ribeira que mais tarde tomou o nome de Rio das Tripas, actualmente canalisado em grande extensão por baixo da rua da Valla, aberta pelo meiado deste seculo. E’ tanto mais notavel este silencio de Gabriel Soares, quanto elle menciona as muitas e grandes roças e grangearias que esta cidade possuia em uma e duas leguas em redor, e suggere já a utilisação das aguas dessa ribeira nas fortificações da cidade. Isto provirá, talvez, de ser a esse tempo o actual dique uma pequena e pouco importante lagôa, e, além disso, mais afastada da velha capital. Com effeito, si o paredão ou barreira atravessada na estreita garganta do sitio denominado Moinho é uma obra d’arte, como tudo parece indicar, a profundidade das aguas e a largura e extensão da bacia deveriam ser muito inferiores ás actuaes. Suppressa aquella barreira as aguas se escoariam promptamente pelo valle do riacho Lucaia, ficando em sêcco muito grande parte do terreno que ellas actualmente cobrem; e nem haveria razão para se dar o nome de dique a uma simples lagôa natural; a propria configuração do terreno indica ter sido entre dous outeiros convergentes o curso natural das aguas que dão origem ao riacho Lucaia, e que foi nesse logar estreito que se procurou represal-as e estendel-as até á Fonte Nova e mesmo além, o que ainda hoje se poderia fazer alteando o açude, e vedando o escoamento para a Lucaia.




E’ certo que durante a occupação desta cidade pelos hollandezes, de 1624 a 1625, eles procuraram fortificar-se nella por todos os modos e por todos os lados, inclusive o de léste, e converteram todo o valle que vae da Barroquinha e da horta de S. Bento até ao logar denominado hoje Sete Portas, e talvez ao proprio dique, em um vasto fosso aquatico, em torno da cidade, represando as aguas em diversos logares com paredões ou trincheiras, formando os diversos diques que Barleu, historiador hollandez, figura na planta da cidade, e chama ao fosso aguas mediterraneas. Estas aguas enchiam todo o valle e suas anfractuosidades, como a da Lapa, Desterro e do Sangradouro, comrnunicando provavelmente com as do dique; digo provavelmente porque não conheço documento historico bastante.explicito a este respeito, e a planta a que me refiro não vae alem do sitio do actual arco da rua da Valla. Habeis como eram em materia de diques, com os quaes disputam ao mar grande parte do seu territorio, os hollandezes teriam tambem construido o nosso, que com os demais da rua da Valla aproveitava á sua defeza dificultando o acesso á cidade sitiada pelas tropas portuguezas, que os attacavam por tres pontos, S. Bento, Carmo, o local onde depois se edificaram as igrejas do Desterro e Santa Anna, junto ao referido fosso aquatico.

Verdade é, segundo refere Accioli, que o general hollandez Van Dort, primeiro governador da cidade, «para maior segurança da capital pretendeu tornal-a uma ilha abrindo o dique, que fica do lado oriental da mesma cidade; mas renunciou a este projecto, por achar muito grande o espaço de terreno que lhe era necessario cortar.»


O mesmo Accioli diz, que quando as tropas portuguezas desembarcaram em Itapagipe e Santo Antonio da Barra encontraram os hollandezes fortificados nos baluartes das portas de S. Bento e do Carmo, tendo egualmente collocado artilheria nas eminencias do natural fosso aquatico já mencionado, e conhecido por Dique.



Pouco adeante dá o mesmo historiador este ponto central, junto ao dique, occupado por 1700 homens portugueses e hespanhoes, com o fim de attacarem por alli a cidade, por ser mais demorado e difficil fazel-o pelas portas de S. Bento e do Carmo.

Ora, si Van Dort renunciou a ilhar a cidade abrindo o dique, fazendo que as aguas a contornassem, deixando apenas dous isthmos, um entre a baixa dos Sapateiros e a praia, e outro entre a Barroquinha e o littoral da Preguiça, e si foram artilhadas pelos hollandezes as eminencias contiguas ao fosso aquatico, aquella obra de defeza já estava realisada quando os portuguezes acamparam na logar das Palmas ou das Palmeiras, isto é, no alto do Desterro e onde hoje está a matriz de Santa Ama. E a não ser assim não se comprehende como Barleu representa na referida planta da cidade, não o dique ou fosso natural que Van Dort pretendeu mas não ousou aproveitar para converter a cidade em ilha, mas a serie de diques parciaes de que ella de facto estava cercada.


Na segunda invasão dos hollandezes, em 1638, receiando-se que elles pretendessem attacar a cidade por este lado, foi de novo fortificada, diz Accioli, a antiga trincheira das Palmas, junto ao dique, o que importa dizer que ainda existiam as aguas mediterraneas indicadas por Barleu; e que ellas continuaram a servir á defeza da cidade até 1716 parece deprehender-se do facto de ter n’esse anno o vice-rei Conde de Villa Verde tratado de melhorar as fortificações com diversas obras, e entre ellas a conservação do fosso aquatico da cidade, denominado Dique, sob a direcção do brigadeiro engenheiro João Massé, vindo de Lisboa (Accioli.)


E’ certo, porém, que si o fosso aquatico precisava de obras de engenharia para a sua conservação, é que elle não estava nas condições em que o deixaram os hollandezes, é isto disse expressamente o fallecido J. A. do Amaral no seu Resumo chronologico e noticioso da provincia da Bahia, em 1885,  nos seguintes termos: «Esse engenheiro (Massé) e os de nomes Miguel Pereira da Costa e Gaspar de Abreu, incumbidos do exame das fortificações, haviam, em 23 de Junho do anno anterior (1715,), informado que era preciso que o Dique tornasse ao estado em que os hollandezes o puzeram, por ser uma defeza de muito grande coasequencia para esta Praça e obra de eterna duração.»


O que não é exacto é o que diz o mesmo Amara, que o dique fôra formado pelos hollandezes no anno de 1640; ha aqui engano de data, porquanto a segunda invasão foi em 14 de Abril de 1638 e durou só até 29 de Maio seguinte, em que elles, sempre repellidos, abandonaram a empreza de reconquista da capital. Elles não poderiam ter emprehendido essa grande obra senão durante a occupação da cidade, que foi de 9 de Maio de 1624 a 30 de Abril de 1625, obra deante de cuja magnitude recuou o governador Van Dort, e terá sido executada por algum dos seus successores no governo e na direcção da défeza.


O mesmo citado Resumo contém ainda algumas outras interessantes informações, entre as quaes a de ter sido o dique formado de um lado que existia, e das aguas que nascem nas baixas do quintal do Convento de S. Bento, origem do regato denominado Rio das Tripas, engrossado pelas de diferentes brejos, onde se fizeram diversas represas. Diz mais que uma dessas represas era na baixa do Convento do Carmo, outra nos brejos do Convento de S. Francisco, entre as ladeiras de S. Miguel e a da rua da Poeira, e a terceira entre a ladeira da Palma e a da Praça; o que está de accordo com a citada planta de Barleu, Mas é certo que sem outras represas não se poderia estabelecer a continuidade do fosso aquatico até communicar com o dique actual, especialmente uma que no logar denominado hoje Sete Portas impedisse as aguas de correrem para o rio Camorogipe.


Terá sido igualmente indispensavel outra represa lateral para obstar á descida das aguas do fosso da baixa dos Sapateiros para o Taboão.


O mesmo autor allude á abertura da rua da ValIa e á canalisação do Rio das Tripas, affirmando que nas Sete Portas se lhe deu nova direcção para o Camorogipe, ((privando-se por esta forma, que fosse desaguar no dique, como outr’ora.)) Que esse rio formado pelas aguas das fontes e brejos da rua da Valla não poderia desaguar no dique por declive natural, sem alguma obra d’arte que o represasse, é evidente, considerando a grande diferença de nivel entre aquelle sitio e a Fonte Nova, ainda mesmo que aqui esse nivel tenha sido, como é provavel, mais baixo do que é hoje, e o nome de Sangradouro que ainda hoje si conserva parece indicar que outra represa ahi existiu entre a collina do Barbalho e a que fica sobranceira as Sete Portas; de outro modo ficaria nesse ponto interrompido o fosso aquatico entre o Moinho e a Barroquinha; e tambem a répresa do Moinho, a unica que resta de quantas se attribuem aos hollandezes para a defeza da cidade, falharia a este objectivo, si não tivesse a vantagem de assegurar a continuidade do fosso aqüatico sem deixar uma interrupção que só aproveitaria aos sitiantes, facilitando-lhes o accesso á eminencia do Desterro. Por essa continuidade o fosso aquatico a partir do Garcia até ao Sangradouro ou Sete Portas, recurvando-se e correndo d’ahi em direcção opposta até á Barroquinha e a Lapa, ficava quasi duplicado em extensão, não permittindo a facil occupação daquella eminencia e da trincheira das Palmas senão ás tropas que desembarcaram em Santo Antonio da Barra em direcção ao alto de S. Bento.


Como quer que seja, parece certo, ou muitissimo provavel, que o que resta desse enorme fosso aquatico é o dique actual, que lhe conserva o nome e a tradição; e quanto a ser obra d’arte a represa do lado do Moinho, facil seria verificar pelo exame da natureza do terreno e de quaesquer materiaes que a constituem.



Em 9 de Fevereiro de 1859 foi aberta ao transito publico uma estrada para o arrabalde do Rio Vermelho, margeando o dique pelo lado de leste; foi-lhe dado o nome de Dous de Julho; e mais tarde, 8 de Junho de 1876, foi inaugurada uma linha ferrea assente no leito da mesma estrada pela companhia de Trilhos Centraes. 

Esta linha cortou alguns braços do dique, dous dos quaes foram mandados entulhar pelo presidente da provincia, por arrematação, obras que foram executadas pelo director da mesma companlna. Esta diminuição da área do dique, e as chuvas torrenciaes que cahiram em Junho de 1880 occasionaram a destruição de grande parte da represa junto ao Moinho, e a massa enorme de agua que se precipitou para o riacho Lucaia destruiu em grande extensão o eito da linha ferrea, e urna fabrica de lapidação de diamantes servida por agua do mesmo dique.


A primeira idéa de embellezamento das margens desta lagoa data de 1872, segundo refere o citado Resumo, quando «a lei n. 1231 concedeu privilegio por 50 annos para a abertura de uma communicação entre o dique e o mar, no logar mais conveniente, bem como para a construcção de uma linha ferrea do Rio Vermelho á Lapa ou ao Largo do Theatro Publico, o ajardinamento da margem do dique, etc., etc., conforme fóra requerido por diversos cidadãos, que posteriormente fizeram cessão do dito privilegio.»

Nenhuma dessas obras mencionadas no privilegio foi realizada até hoje, com excepção da linha ferrea, cuja execução foi concedida pela camara municipal á empreza de Trilhos Centraes, e approvada por acto do governo provincial, de 18 de Junho de 1874.


Este melhoramento em relação ao dique, apenas consistiu em tornal-o mais accessivel ás vistas da população, com a desvantagem de lhe diminuir um pouco a superficie com certos aterros desnecessarios, tendo podido a linha atravessar em pontilhões os braços, entulhados por iniciativa do proprio governo, que chamou concurrencia para esta obra, como acima ficou dito, em 6 de Junho de 1878.


Posso repetir, portanto, que o dique está virgem de obras d’arte que o embellezem e o convertam em centro de recreio publico a que elle se pode prestar, e como é necessario em uma capital como a nossa, onde não abundam as diversões, e ha um passeio publico, pode se dizer que nominal, quasi sempre deserto por não ofíerecer attractivo algum que o recommende á concurrencia dos nossos concidadãos e dos forasteiros, e um denominado parque no Campo Grande, que por emquanto nem é parque nem jardim, e só tem de importante o magnifico monumento commernorativo da nossa emancipação politica, que o publico em geral se contenta em contemplar de fóra.


O dique é povoado de diversas especies de peixes, em geral de pequenas dimensões, que nunca foram estudados nem classificados scientificamente. Houve em tempo quem se propuzesse a cultivar alli outras e mais uteis especies de peixes para abastecimento do mercado; foi o Dr. Francisco Antonio Pereira Rocha, um dos concessionarios da Companhia do Queimado, que supponho ter pretendido para aquele fim um privilegio, não me lembro em que data, mas é certo que elle publicou sobre a piscicultura do dique um folheto em que expunha as particularidades e as vantagens do seu projecto que, corno outros sobre a utilisação do dique, ficou no esquecimento até hoje. (2)

Eram vistas alli tambem noutro tempo algumas grandes cobras aquaticas do genero boa, entre elas a sucuriuba (boas anacondo), que, como os jacarés, eram mais numerosas quando desertas ou pouco frequentadas as margens do dique. E’ raro hoje ver-se alli um ou outro destes reptis.


Não consta que tenha sido estudada a hydrographia desta lagôa, nem mesmo determinada a sua profundidade em diversos pontes da sua extensão. nem a constituição geologica das suas margens, a natureza da vasa negra que em alguns logares se encontra no fundo, estudos que, como outros referentes ao dique, já deveriam ter sido feitos. Ha quem aflirme que um caibro de quarenta palmos ou mais mergulha todo na agua e no lodo.


E’ certo que em um sitio fronteiro ao novo bairro do Tororó, a commissáo recentemente incumbida de estudar as aguas do dique encontrou uma profundidade superior a sete metros, e em outro proximo ao Garcia, superior a cinco metros, o que faz presumir, considerando a sua grande largura em alguns logares e extensão de dois kilometros, a massa enorme de agua ali represada, fornecida pelas nascentes, mesmo em épocas, como a presente, de prolongada sêcca.


Eis o que a respeito do dique posso dizer nesta breve resenha historica e descriptiva, que outros melhor informados poderão corrigir e augmentar. Não devo, entretanto, omittir aqui mais um projecto recentemente apresentado para o seu embellezamento e utilisação.


Este é, sem duvida, o mais arrojado de todos, e tambem o que maiores vantagens póde offerecer á população desta capital no presente e no futuro.


Tratando-se de solemnisar na Bahia o quarto centenario do descobrimento do Brazil, a grande e selecta commissão encarregada de indicar e promover os meios e modos de commemorar condignamente esta data primordial e gloriosa das ephemerides do Estado da Bahia, entre outros alvitres suggeridos para esse fim, teve de occupar-se com um projecto realmente soberbo, e digno ao mesmo tempo desta capital e do grande aconteceimento historico que se pretende commemorar. E’ nada menos do que abrir uma rua subterranea das margens do dique á cidade baixa, ajardinar os terrenos adjacentes, construir alli um grande edificio para uma exposição industrial, agricola, artistica, etc.; outro pata um museu, e um jardim botanico e zoologico annexos, etc., para serem inaugurados nas festas do centenário.


Tudo isto é magnifico, e a realização de tão grandioso projecto viria absolver-nos de sobra do menos preço em que por longos annos temos deixado aquelle esplendido lago e terrenos marginaes; mas.. . ha, infelizmente, a receiar dous obstaculos principaes a que a Bahia mostre que é digna de possuir aquella preciosa dadiva da natureza, elevando-a á estima que ella merece: o primeiro é a estreiteza do tempo, o segundo o avultado dispendio que tal emprehendimento exige.


Vencidos que fossem ou que sejam estes obstaculos, a Bahia, talvez mais do que nenhum outro Estado, daria ou dará ás festas commemorativas do quarto centenario um excepcional esplendor, legando ao mesmo tempo ás gerações futuras um monumento para recordar-lh’as com honrosa gratidão.


Tenha ou não tenha exito satisfactorio no todo ou em parte o alludido projecto elaborado por distinctos profissionaes em engenharia, o certo é que o dique não pode nem deve continuar no abandono em que se acha de todo e qualquer cuidado, ao menos de conservação e saniamento: elle tende constantemente a estreitar-se, corno já acima ficou dito, e é peceptaculo obrigado de immundicias e detritos de toda a especie, provenientes das povoações visinhas, da lavagem de roupa, animaes mortos, etc.; é em grande parte por isso que as suas aguas são olhadas com justificada suspeita de improprias para bebida, dependendo ainda de uma commissão especial nomeada pela Intendencia o juizo definitivo sobre as suas qualidades nocivas ou innocuas para uso da população em tempos ordinarios, e principalmente na actual crise aquaria.


E quando, infelizmente, venha tambem a falhar, como os precedentes o projecto apresentado á grande commissão do Centenario do Brazil, dê-se começo alli a alguns estudos e a obras de necessidade, como sejam desobstruir o prolongamento do Dique proximo á Fonte Nova, restituindo-lhe a sua antiga extensão: construcção de pontes em logares convenientes, especial mente urna, pouco dispendiosa, que communique o novo e já populoso bairro do Tororó com a margem oriental, onde a passagem de uma para outra se faz por meio de saveiros. Uma estrada pela margem occidental entre a Fonte Nova e o Polytheama ou Campo Grande offereceria ao publico não pequena commodidade, e convidaria, talvez, os proprietarios a iniciar edificações nos terrenos adjacentes.


As aguas deste lago poderiam tambem ser utilisadas para as bacias, chafarizes e repuxos do Campo Grande por meio de machinismos que as levassem a depositos na conveniente altura, não só para irrigação, como para jorrarem por occasião de festas nacionaes, ou de divertimentos publicos.



Quando se não faça tudo, faça-se desde já alguma cousa para que o Dique não continue desaproveitado como até agora; e si não pudermos ainda desta vez reunir alli o util e o agradavel, procuremos conseguir o primeiro ao menos, emquanto esperamos que melhores tempos, e mais felizes ou mais corajosos emprehendedores nos tragam algum dia o segundo.


 (1) Em 1876 este moinho estava, e ainda esteye por alguns annos, convertido em fabrica de lapidar diamantes.
(2) Depois de escriptas estas linhas, verifiquei que effectivamente o Dr. Rocha arrendou o dique á Camara Municipal por 17 annos, com o privilegio de explorar alli a industria da piscicultura, povoando-o de peixes fluviaes e lacustres de especies indigenas e européas, qu forneceria ao mercado a 200 réis o kilo.
O folheto alludido tem a data de 30 de Maio de 1876; descreve os diversos processos conhecidos de piscicultura nos paizes estrangeiros, e termina convidando para a execução do projecto socios e capitaes, que nunca appareceram.

(3) Esta cornrnissão, composta dos Drs. Manuel Joaquim Saraiva. (que, infelizmente, falleceu pouco dias depois de iniciados os seus trabalhos) Augusto Vianna e J. F. da Silva Lima, depois de expor os resultados das investigações chimicas e bacteriologicas a que procedeu, concluiu assim o seu parecer: “Portanto, baseados nas analyses chímica e bacteriologica, apezar de não ter esta revelado a presença de germens pathogenos, chegamos á conclusão de que a agua do dique não pode ser utilisada impunemente, sem que primeiro soffra rigorosos processos de purificação que a tornem incolume, processos estes que demandam não pequeno periodo de tempo, certamente incompativel com a urgéncia da actua1idade.


Bahia, Fevereiro de 1899


Dr. Silva Lima


In: Revista Trimensal do Instituto Geographico e Historico da Bahia. Anno VI, Março de 1889, Num. 19, p. 13-25.
Foto: Relíquias da Bahia.
Foto: Relíquias da Bahia.
Foto: Relíquias da Bahia.
Foto: Relíquias da Bahia.
As lavadeiras estiveram ali até 1968, 
quando começaram as obras de terraplanagem 
para abertura da Avenida Costa e Silva, 
inaugurada no ano seguinte.









segunda-feira, 20 de julho de 2015

Silva Campos, 1930: Por que não se pescam mais xaréos no Rio Vermelho (grifo nosso)...

Diluida remanescencia de um culto velho como a humanidade, oriundo, talvez, da India enigmática e misteriosa, a hidrolatria, é a crença na Sereia e na Mãe d’Água, confundidas geralmente as duas entidades fictícias, vulgaríssima entre as nossas populações justafluviaes e marítimas, e notadamente arraigada entre os pescadores (as sereias, segundo hoje se representam, metade mulher e metade peixe são um mito atlântico moderno, diz-nos João Ribeiro. As da mitologia helenica eram metade mulher e metade peixe). No Reconcavo, onde quer que exista um regato, uma fonte, ahi está a Mãe d’Água, de basta e fulva cabeleira, alisando-a ao sol com pente de ouro. Por seu turno, os africanos, outrora, e os que lhe herdaram os mitos, hoje em dia, acreditavam e acreditam igualmente, sem vacilação, na gente do fundo, que são aqueles dois seres imaginários. Ha candomblés que são dedicados exclusivamente ás deusas personificadoras do elemento líquido. No Maranhão tem esta crendice, tambem, os povos dos terreiros mina (negros mina, ou da Costa da Mina), ou irmandade de Santa Bárbara, que são as denominações irrogadas ás assembléas dos adeptos do feiticismo africano. O índio da Amazonia crê na existencia da Iara, mas não lhe rende culto.

Os pescadores, de baleia domiciliados nas povoações da Ponta d’Areia, Amoreiras, Gameleira, e outras da ilha de Itaparica, do mesmo modo que os do litoral da cidade, nas vizinhanças da Barra; os de xaréo, das armações da costa atlantica, entre o Rio Vermelho e Itapoã; e os demais da Barra e do Rio Vermelho, celebravam com singular aparato a festa da Mãe d’Água, suplicando á undícula deidade que lhes proporcionasse abundancia do cetáceo, que lhes desse peixe á ufa. Ao mesmo tempo mandavam celebrar missas votivas, especialmente a Nossa Senhora, e realizavam romarias às igrejas das Candeias, do Bonfim, de Montserrat, e de Santo Antonio da Barra, implorando á Potestade Divina que os livrasse das iras do oceano, dos azares da profissão.

Esta festa, - vou falar no indicativo presente, porque ela inda não desapareceu inteiramente, - consta principalmente dos presentes á Mãe d’Água: frascos de perfume, banhas aromáticas, sabonetes, fitas, espelhinhos, pentes, maços de grampos, e o mais, que, acomodados em vasilhas de barro, novas, ataviadas de flores e laçarotes de papel de seda, se deitam ao mar, na meia-travessa da bahia, ou seja no leito da corrente que dela sae para o Atlantico, e são conduzidos em barcos e saveiros embandeirados, ao som de instrumentos africanos e do espocar de foguetes. Antes disso e depois disso, um samba, um batuque arreliento, arrojado, que se prolonga por horas sem conto. E aguardente como água. Claro está que só se utilizam da meia-travessa para receptáculo dos presentes os pescadores ribeirinhos da bahia. Os outros vão a pontos adrede elegidos, em pleno oceano.

Nos tres supracitados lugares de Itaparica ainda está em uso a festa da Mãe d’Água, no dia de Nossa Senhora das Candeias, comumente mas sem a animação de d’antanho. Tradicionalista apaixonado, tive oportunidade, pêlo qual me dou parabens, de assistil-a da Ponta d’Areia, em 2 de fevereiro de 1929.

Os pescadores do Rio Vermelho tambem fazem ainda a festa dos presentes, em fevereiro. No corrente ano efectuaram-na, mui modestamente, na segunda quinzena do referido mez. Os da Barra, penso que já a esqueceram. Nas armações de pesca de xaréo entre a Lagoa e o lugar propriamente dito Armação, essa exteriorização do culto á fabulosa divindade permanece igualmente amortecido. Tão ostentosa que foi outrora! A ponto de certo proprietário de redes de xaréo, nessa costa, presentear anualmente a dona do mar com uma escrava viva, negrinha ou mulatinha nova, que atirava ás ondas atada de pés e mãos!

A mais pomposa festa dedicada á Mãe d’Água, - Iemanjá, segundo os africanos, - nesta capital, era a que a gente de candomblé efectuava no terceiro domingo de dezembro, em Itapagipe, defronte do arrasado forte de São Bartolomeu. Era uma folia de estrondo, durante quinze dias seguidos, e comparecendo á mesma passante de dois mil africanos e creoulos dos dois sexos. Todos os paes e mães de santo, ou de terreiro, da Bahia, lá estavam, aqueles, segundo Manoel Querino (A Bahia de Outr’ora, ed. De 1922), muito lordes, exibindo chapéos do Chile, ou de castor, brilhantes em aneis e alfinetes de gravata, correntões e relógios de ouro; e essas, quebrando sedas e gorgurões, carregavam quilos de balangandáns, pulseiras e cordões de fino metal. Tambem atiravam presentes na meia-travessa, constando, além do que já apontei, de comidas preparadas com azeite de dendê, e carneiros e galináceos préviamente sacrificados, e também vivos, como o faziam igualmente os pescadores de Itaparica, em relação a estes ultimos.

Os candombléseiros do Gantois, da Mata Escura, do Engenho Velho, do Bôgum, do Pauzerré, e outros lugares cercãos, iam botar os presentes no Dique, durante a festança anual da rainha das águas. E, por fim, as lavadeiras da mais que centenária Fonte da Vovó, á rua da Vala e defronte do bêco do Funil, que alcancei sombrada por uma gameleira ramulhada, e frequentada por dezenas daquelas mulheres, não sei em que altura do mez de janeiro, promoviam a festança em honra da sereia protectora do manancial, para que o conservasse sempre abundoso. Durava a pagodeira dois, tres dias, com incrivel fartura de comidas azeitadas e apimentadas, dornas de aguardente, um samba ininterrupto e, lá para tarde da noite, - dado que o pagode atraia uma creoulada atrevida e turbulente, - bordoada de criar bicho. Tambem davam presentes á sereia; agora, onde os iam botar, não nei.

Veja-se bem como a crença na ficção oriental, emigrando possivelmente das margens do Ganges sagrado, perigrinando pêla Grécia imortal, e pêla velha Roma gloriosa, sintetizada em brejeiras ninfas e enganadoras sirehas, veio encorporar-se á nossa mítica, escalando pêlo continente chamita, e dramatizando-se, afinal, na orgia da Fonte da Vovó, e no candomblé de Itapagipe.

Até que, enfim, vou chegar onde queria, depois de haver impingido semelhante lengalenga ao próximo. Corre entre os pescadores do Rio Vermelho a seguinte tradição.

Existia ahi, em dias bem longe idos (em 1803 o Mosteiro de São Bento possuia no Rio Vermelho “um porto da armação da pescaria de xaréo” que lhe foi legado por Fr. Agostinho de São Gonçalo), uma rendosa armação de pesca de xaréo, o saboroso peixe tão estimado da gente pobre, e, outrora, tão ao alcance da sua magra algibeira. Quando era tempo do pescado, as redes vinham em termo de se romper. Um assombro. Os homens do pequeno arrebalde viviam endinheirados. O dono da armação, nem se fala. Já estava podre de rico. Certo dia, nas malhas de uma das redes lançadas ao mar, que era benta, como se usava geralmente, veio enleiada uma sereia. O proprietário do aparelho, desejando viver em paz com a gente de debaixo d’água, fel-a soltar imediatamente. Decorreram anos. E o xaréo sempre a pontapés. Outro era o dono da armação, quando, pela segunda vez, tornaram as redes a pescar uma sereia. Que fez o desabusado sujeito? Depois de renhida luta, conseguiu agarral-a, levando-a á igreja do povoado. Não sei se á extinta capela de São Gonçalo, ou á atual igreja de Sant’Ana. Divergem os narradores da tradição. Celebrava-se a missa, na ocasião. A sereia, cabiabaixa, envergonhada, por se ver no meio dos humanos, o formoso rosto e os rijos seios cobertosd com a opulenta cabeleira, chorava em termo de se acabar. Assim permaneceu no templo, sustentando-a dois pescadores pêlas axilas, por que se mantivesse erecta, até que, terminada a cerimonia, soltaram-na á beira-mar.

Desde esse dia, nunca mais se pegou um xaréo, para remédio, nas águas do porto de Sant’Ana do Rio Vermelho, apesar das oferendas que os pescadores do lugar jamais deixaram de ir levar anualmente á Mãe d’Água.

SILVA CAMPOS. João da. Por que não se pescam mais xaréos no Rio Vermelho. In: _____. Tradições Bahianas – Separata da Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nº 56, 1930. Bahia: Secção Graphica da Escola de Aprendizes Artífices, 1930, p. 63-67.



Marcel Gautherot. Puxada do Xaréu, 1943.

Dmitri Kessel, abril de 1957.
Década de 1970.