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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Silva Campos (1930): Santíssimo Sacramento do Pilar x Carmelitas

Segundo Silva Campos (1930, p. 59), em sua Memória sôbre o Estado da Bahia, Francisco Vicente Viana declarou que “um ano depois de se estabelecerem no sítio então conhecido por Monte Calvário, em 1586, fabricaram os religiosos do Carmo pequena capela na marinha da cidade”. Entretanto, o Frei Manoel Baranera Serra, superior provincial do Convento do Carmo, apurou que “o hospício foi fundado em terreno cedido a 31 de Janeiro de 1686 por sesmaria do governador geral Dom Antonio Luiz de Souza Telo de Menezes, marquez das Minas, ao padre Pascoal Durão de Carvalho, passando-o este, por sua vez, aos frades carmelitanos por escritura pública de 26 de Janeiro de 1691. Em virtude de insistente rogos ao soberano, que se opunha com tenacidade, e por motivos de ordem economica, á erecção de novas casa monásticas na sua colonia americana, permitiu a carta règia de 21 de Março de 1714 aos preditos religiosos a fabricação dum pequeno hospício”.

Ainda com base nos registros de Frei Manoel Baranera Serra, Silva Campos informou que poucos padres habitaram a casa de estudos e que sua construção na verdade fez parte de uma estratégia, o aumento do número de casas de sodalício para criação da província carmelitada da Bahia, o que se concretizou em 22 de abril de 1720. Como a construção do hospício obstruiu o acesso dos irmãos do Santíssimo Sacramento do Pilar à marinha de que se serviam e facilitou a prática de contrabado, houve contenda. Os vigários do pilar alegaram que a construção se estendeu para além do que permitia a carta règia de 21 de Março de 1714 e se colocaram contra a permanência dos frades ás portas da sua Matriz, pois prejudicava a celebração dos actos religiosos e assistência aos fiéias como dantes. Em 16 de Janeiro de 1755, Dom João V, ordenou ao vice-rei Dom Marcos de Noronha, Conde dos Arcos, a demolição do hospício. Mas, tempos depois, a ordem foi revogada e os carmelitas ainda construiram um plano inclinado para transporte de gêneros e artigos vindos do Reino e de seus engenhos no Recôncavo, destinados ao consumo e uso do convento.

Silva Campos descreveu o local já transformado em casa de negócio: “Raros são os vestígios, além da disposição intrínseca do edifício, que nos lembram a sua passada aplicação. Onde foi o presbitério, uns restos de pintura a óleo. As portas que davam acesso ás sacristias, mostram bonita verga em arco de volta abatida. Numa das referidas sacristias, a do lado do Evangelho, apontaram-me um nicho aberto na parede, no qual se venerava a imagem de Santa Ifigenia, segundo afirmativa do meu guia. A construção é extraordinariamente sólida, apresentando as paredes mais de quatro plamos de espessura, e estando todo o vigamento em perfeito estado de conservação”.

Segundo ele, diversas vezes desmoroamentos da montanha ameaçaram soterrá-lo – como em 3 de Maio de 1748, quando várias casas foram derrubadas e a terra o invadiu até a altura das janelas – e em 1866 “já estava êle deserto de frades, e a igreja abandonada”. Embora não soubesse quando foi transformado em trapiche, constatou que em 1921 estava alugado à Companhia Geral Comercial São Salvador e que em 1922, para melhorar o ganho do aluguel, os carmelitas mandaram retirar seu sino e detruir suas torres.


SILVA CAMPOS. João da. Santo Antonio de Campo Formoso. In: _____. Tradições Bahianas – Separata da Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nº 56, 1930. Bahia: Secção Graphica da Escola de Aprendizes Artífices, 1930, p. 59-62.

Silva Campos: antigas capelas e hospícios (pequenas casas monásticas de estudos)

A capela da Conceição, ao Unhão […] já aberta ao culto em 1757, não obstante a data – 1797 – inscrita na arquivolta da porta principal, indicando, quiçá, alguma remodelação, - essa capela está pura e simplesmente transformada em moradia, há passante de cincoenta anos.

Fim idêntico estava reservado ao hospício dos Padres de São Felipe de Neri, á Preguiça. A capelinha do Senhor dos Passos dos Humildes, á rua do Tingui, foi derrubada, substituindo-a um prédio de dois andares dizem-me que destinado a escola. A igrejinha da Massaranduba serve hoje de abrigo ás alimarias do bairro. Finalmente, o antigo hospício do Pilar, dos carmelitas observantes, […] defronte da matriz daquele nome, encontra-se transformado em trapiche. “Trapiche Lúcia.” Ali onde, outrora, entoavam-se hinos ao Senhor dos Exércitos […] e, em vez do odor místico de incenso, evolando-se de rendilhados turíbulos de prata, a perfumar-se carinhosamente a nave, desprende-se acre fartum das pilhas de sacos de cacau, de café, e de assucar, de fardos de fumo, e de rumas de couros sêcos.


SILVA CAMPOS. João da. Santo Antonio de Campo Formoso. In: _____. Tradições Bahianas – Separata da Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nº 56, 1930. Bahia: Secção Graphica da Escola de Aprendizes Artífices, 1930, p. 58-59.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cidade-Baixa - Comércio, Pilar, Penha, Bonfim, Ribeira

Salvador era uma cidade comercial, desde os primeiros séculos da colonização. Nas freguesias da Cidade Baixa existiam muitas lojas de fazendas, miudezas, ferragens, peças para embarcações, drogas, armazéns de molhados, e os conhecidos Cobertos eram lugares de muito comércio, especialmente de venda de quinquilharias. Trapiches existiam para a mercância de ir e vir. Recebiam os produtos da terra, destinados a exportação: açúcar, fumo, algodão, aguardente, couros, madeiras, piaçava, e os que se importavam, como os vinhos, os azeites, os vinagres, a farinha do reino, o bacalhau. A Alfândega Geral ficava na freguesia da Conceição da Praia, com todos os funcionários indispensáveis à inspeção das mercadorias. Ainda na mesma freguesia; o Arsenal, a Ribeira das Naus, com o construtor de embarcações e oficinas necessárias; o estaleiro para a feitura das naus e fragatas, e um outro menor para as corvetas e brigues de guerra. A Praça do Comércio, dando para o mar, era edifício de respeitáveis dimensões e dos mais luxuosos da cidade, poder-se-ia nele encontrar uma sala para escrituração, a serviço dos negociantes, recinto para leilões, e, o armazém de arrecadação. Neste mesmo edifício, estavam os escritórios de três companhias de seguros: Boa Fé, Conceito Público e Comércio Marítimo.

Na Praça de SãoJosé ,junto da igreja de Santa Bárbara, havia feira do pescado, assim como no Cais Dourado estavam expostos à venda os frutos da terra, produtos de abastecimento trazidos através da baía.

No Pilar, existiam os armazéns para a arrecadação do açúcar e quatro prensas de algodão. Nessa freguesia estavam estabelecidos os maiores comerciantes em grosso da praça da cidade. Ali, na verdade, se concentravam os graves e sólidos comerciantes portugueses que haviam chegado ao Brasil, como imigrantes, depois da Independência, e aqui fizeram fortuna. Na Calçada do Bonfim, quarteirão pertencente à mesma freguesia, residiam os mais ricos desses lusitanos. Outros, contudo, preferiam morar vizinhos ou, mesmo, sobre as suas casas de negócios, hábito peculiar desse povo, não dando importância ao desconforto que ocasionavam às suas famílias, habitar tão próximos de trapiches e armazéns, nem ao odor que emanava das diversas mercadorias com que transacionavam.

Na Penha, existiam estaleiros para a construção de grandes embarcações ou de fragatas. No sítio do Papagaio encontravam-se os alambiques para destilar a cachaça, e numerosos lugares onde se encontrava o pescado. No porto do Bonfim havia uma fábrica de vidros, e nessa freguesia, durante o século XIX, instalaram-se algumas das primeiras fábricas de tecidos. Na Ribeira de Itapajipe, o povo podia atravessar em barca, de um lado para o outro, procurando a terra firme dos subúrbios, sendo animais também aceitos nesse precário meio de transporte. À Penha dirigiam-se os romeiros em busca da capela do Bonfim, demonstrando sua devoção nas esmolas generosas, cera e azeite, contribuindo para o patrimônio da igreja. Junto a esta surgiram as casas dos romeiros, todas iguais, que lhes serviam de agasalho, no tempo que passavam em local longínquo da cidade.

Anna Amélia Vieira Nascimento

NASCIMENTO, Anna Amélia Vieira. Dez freguesias da cidade do Salvador: aspectos sociais e urbanos do século XIX. Salvador:EDUFBA, 2007.