Porque há muito mais para conhecer sobre a história e cultura da primeira capital do Brasil. Precisamos popularizar o conhecimento que, felizmente, vem sendo amplamente recuperado e/ou produzido em institutos públicos e privados e nas universidades (toda contribuição é bem vinda aqui). Cidadão, estudantes e educadores soteropolitanos, este espaço é para vocês. Turistas também são muito bem vindos.
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terça-feira, 12 de junho de 2018
sexta-feira, 25 de maio de 2018
Capela do Corpo Santo
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| http://www.igrejas-bahia.com/salvador/corpo-santo.htm |
Ano da Redenção do mundo de 1711.
Demandava a barra de Todos os Santos um navio de comercio do qual era
capitão e proprietário encanecido marujo, castelhano de nacionalidade. Pedro
Goncalves, assim se chamava. Ao demais fervoroso católico, e senhor de pingues
haveres.
Rija Tempestade desencadeara-se, cavando na face do oceano profundos
vales,e solevando engrimpadas colinas franjadas de espuma. O mar, escabujando
em desmedida furia, agora arrastava a nau para os sorvedouros hiantes, e logo
impelia para o fastígio dos vergalhões tremendos, como se fôra leve jangada.
Debalde o experimentado mauta aproava o seu baixel para o canal que
levaria ao interior do golfão, escapando assim à cólera da tormenta. O leme,
porem, não fazia mais o seu ofício. O marouço baldeava-lhe o convez de popa á
proa, de estibordo a bombordo, arrancando as obras mortas, varrendo tudo quanto
nas suas impetuosos rajadas ia topando.
Estava perdido! As ondas desenfreadas atiravam-no para cima de
enrocados parcéis, jacentes cerca do fortim de Santo Antonio. Se, porem, à
embarcação faltava o leme e as velas, ao capitão a fé em Deus não faltava, e,
rendido de joelhos, mãos postas e olhos ao alto, invocou a proteção do
milagroso santo do seu nome. Que intercedesse ao Senhor, por si e pelos seus
companheiros em tão doloroso transe.
Assim deprecava os céos, quando pêla proa do desgovernado navio,
agitando-se nas aguas convulsionadas, diviza um frade da sagrada religião de
São Domingos, tendo à dextra um círio aceso. Sem raciocinar um momento siquer sobre
a incongruência do que via, deliberou imediatamente socorrer o dominicano, êle
que a salvação da própria vida tinha tão duvidosa áquele instante para o que,
empregando a fatigada tripulação audaciosos esforços fez arriar um bote, no
qual se meteu. Assim que a pequena embarcação tocou a crista das vagas, a
borrasca amainou repentinamente, ao tempo em que o frade desaparecia como por
encanto.
Reconhecendo então o milagre que o seu bem-aventurado homônimo operara,
êle e toda a maruja, tomados do mais radiante júblio, genuflectiram sobre a
coberta, dando graças ao Altíssimo pêla mercê das próprias vidas, que por
intercessão do seu glorioso servo São Frei Pedro Gonçalves lhes fizera. Não foi
menor a surpresa, nem menos intensa a alegria de que se possuíram os
navegantes, vendo a desmantelada embarcação, misteriosamente propelida, ir dar
ao litoral da cidade, nas proximidades da igreja matriz da Conceição a Praia.
Desembarcou o velho nauta no mesmo sitio, e foi ter ao casebre de uma
velha africana, comprando-lhe o terreno que ocupava. Conseguida a indispensável
licença do diocesano, meteu ombros á fábrica de uma ermida votada ao santo
dominicano, e no espaço de curtos meses, - tanta diligência pusera na obra, -
seu vulto, com uma vela acesa à mão, segundo o vira pordavante da sua nave a soçobrar,
erguia-se no altar. Além do valioso patrimônio que para manutenção do culto
instituiu, vinculou mais à capelinha grande extensão de marinhas, obtidas em
sesmaria do governador da colônia.
No frontispício do pequeno templo votivo gravou Pedro Gonçalves os
algarismos da éra do milagre e da construção; e na proa do navio, reparadas as
injúrias do vendaval, fez insculpir o venerando simulacro do seu bemventuro compatrício.
Por largos anos foi a igrejinha termo de devotas peregrinações de
marinheiros que, acossados pelas tempestades, recorriam cheios de fé á
intervenção do milagrosos santo, por cujo favor viam salvas as vidas do abismo
pelágico, indo por fim, sob céo bonavençoso, largar as ancoras nas águas
quietas da imcomparavel bahia.
Ahi está como explica a lenda (inserta na Memória sobre o Estado da
Bahia, de Francisco Vicente Viana) a fundação da capela do Corpo santo, que
muita gente supõe dedicada a São José, e que, de 1736 a 1756, enquanto se construía
a actual igreja da Conceição da Praia, serviu de matriz da freguesia, sendo
remodelada em 1903 pelo intendente Freire de Carvalho.
Segundo li no curioso trabalho de J. Teixeira Barros, Epigrafia bahiana
(in Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, no. 51), o cronograma
1711, que aparecia na fachada da pristina capela, memorava a administração de
João Gomes Ribeiro Vianense, seu fabriqueiro, ou coisa semelhante. Donde se
infere ser a construção anterior àquela data, contrariando assim a lenda, que
vae sofrer mais a seguinte contestação. O terreno em que se elevou a igrejinha
pertencia naquele tempo à família Cavalcanti d’Albuquerque, havendo sido
primitivamente de Tomé de Souza, fundador da Bahia, e, pois, o capitão do navio
não podia tel-o comprado á africana; nem obtido sesmarias na marinha da cidade,
que de há muito já estava toda sesmada, da Ponta do Padrão á de Monserrate.
Perguntar-me-ão: Porque igreja do Corpo Santo, e não de São Pedro
Gonçalves, se este é o seu padroeiro? Abro, para lhes responder, o Ano Cristão,
do jesuíta francez padre Croiset, obra em quinze volumes, traduzida e ampliada
pelo padre Matos Soares, professor do Seminário do Pôrto, e, nas comemorações do
dia 15 de abril encontro menção a São Pedro Gonçalves Telmo. Este e São Frei
Gil de Santarém, o lendário frade portuguez, tido vulgarmente por nigromante,
são os dois únicos bem-aventurados, ambos dominicanos, que passaram á
posteridade com o seu designativo de sacerdote regular junto ao de eleito do
Senhor.
Diz o Ano Cristão:
“Este santo tem o seu nome estreitamente ligado á nossa aventura marítima,
pêla devoção que lhe tinham os marinheiros que das praias lusitadas se faziam
ao mar imenso, em demanda das terras da India ou de Santa Cruz. Quando a
tormenta uivava, vergando as enxárcias da nau gemente, a tripulação invocava o
seu patrono, clamando: Sant’Elmo! Sant’Elmo”
Dahi o chamar-se ainda hoje fogo de Sant’Elmo, ou simplesmente
santelmo, á chama azulada que, quando está iminente a tormenta, fosforeja na
extremidade dos mastros ou das vergas das embarcações. É esta a origem de se
chamar popularmente ao nosso bem-aventurado – Corpo Santo, porque, quando via a
lucilação elétrica, a marinhagem, na sua simplicidade, julgava que era o
próprio santo que vinha socorrel-a, e clamava alvoroçada de esperança: - Corpo
Santo! Corpo Santo!
Pode-se conjecturar o seguinte, relativamente á fundação da capelinha
em apreço, desaceitando por completo a tradição. Pôrto frequentadíssimo era o
nosso, desde o nascimento da cidade, não só pelas embarcações que do Reino o
buscavam por ponto final da sua navegação, mas também dos que arribavam, ou
escalavam em direitura ou retorno do Rio de Janeiro, Santos, Ilha de Santa
Catarina, Rio da Prata, portos do Mar Pacifico, costas oriental e ocidental de
África, India, China, Molucas e Japão, era mui natural que a gente do mar
houvesse construído a igrejinha, dedicando-a ao santo, - extraordinariamente
venerado pelos marujos portugueses, segundo vimos, como também pelos castelhanos,
e que sempre foi representado com uma vela acesa á mão direita, - para lhe
agradecer os favores recebidos, ou suplical-os, independentemente do milagre
supra. Ainda mais, o inventor da lenda, ignorando ser o santo invocado pelos marujos
nos seus momentos de angustia, faz o capitão seu devoto, parece, por amor da
identidade dos nomes, e não como patrono dos navegantes.
Também no Recife houve uma igreja do Corpo Santo, hoje demolida, no
bairro comercial, e que já existia por ocasião da conquista holandeza, em 1630.
Eu penso que a nossa não é muito mais nova. Em todas as povoações marítimas de
Portugal existiam confrarias de Santo Elmo.
São Frei Gonçalves Telmo, castelhano, aparentado da família Teles de
Menezes, viveu nos séculos XII e XIII, sendo tio do lendário São Gonçalo de
Amarante, tão venerado aqui na Bahia, em dias passados.
Para concluir, uma fábula sinonímica do fogo elétrico, além dos termos
Santelmo, Fogo de Sant’Elmo e Corpo Santo que já mencionei. É esta: - Helena,
Fogo de Santa Helena, Hermes, Fogo de Hermes, Fogo de São Pedro e Fogo de São
Nicolau ( O “sacro Nicolau” de Camões [Os Lusiadas, canto V, LXXIV], também considerado
patrono dos marinheiros. Como Santo Erasmo). Isso não se encontra em obra rara,
ou de difícil consulta, Não. Vem simplesmente na terceira edição do dicionário
de Candido Figueiredo.
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Silva Campos
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Silva Campos, 1930: Por que não se pescam mais xaréos no Rio Vermelho (grifo nosso)...
Diluida remanescencia de um culto velho como a humanidade,
oriundo, talvez, da India enigmática e misteriosa, a hidrolatria, é a crença na
Sereia e na Mãe d’Água, confundidas geralmente as duas entidades fictícias,
vulgaríssima entre as nossas populações justafluviaes e marítimas, e
notadamente arraigada entre os pescadores (as sereias, segundo hoje se
representam, metade mulher e metade peixe são um mito atlântico moderno,
diz-nos João Ribeiro. As da mitologia helenica eram metade mulher e metade
peixe). No Reconcavo, onde quer que
exista um regato, uma fonte, ahi está a Mãe d’Água, de basta e fulva cabeleira,
alisando-a ao sol com pente de ouro. Por seu turno, os africanos, outrora, e os
que lhe herdaram os mitos, hoje em dia, acreditavam e acreditam igualmente, sem
vacilação, na gente do fundo, que são aqueles dois seres imaginários. Ha
candomblés que são dedicados exclusivamente ás deusas personificadoras do
elemento líquido. No Maranhão tem
esta crendice, tambem, os povos dos terreiros mina (negros mina, ou da Costa da
Mina), ou irmandade de Santa Bárbara, que são as denominações irrogadas ás
assembléas dos adeptos do feiticismo africano. O índio da Amazonia crê na existencia da Iara, mas não lhe rende culto.
Os pescadores, de
baleia domiciliados nas povoações da Ponta
d’Areia, Amoreiras, Gameleira, e outras da ilha de Itaparica, do mesmo modo
que os do litoral da cidade, nas vizinhanças da Barra; os de xaréo, das
armações da costa atlantica, entre o Rio
Vermelho e Itapoã; e os demais da
Barra e do Rio Vermelho, celebravam com singular aparato a festa da Mãe d’Água,
suplicando á undícula deidade que lhes proporcionasse abundancia do cetáceo,
que lhes desse peixe á ufa. Ao mesmo tempo mandavam celebrar missas votivas,
especialmente a Nossa Senhora, e realizavam romarias às igrejas das Candeias, do Bonfim, de Montserrat, e de Santo Antonio da
Barra, implorando á Potestade Divina que os livrasse das iras do oceano,
dos azares da profissão.
Esta festa, - vou falar no indicativo presente, porque ela
inda não desapareceu inteiramente, - consta principalmente dos presentes á Mãe
d’Água: frascos de perfume, banhas aromáticas, sabonetes, fitas, espelhinhos,
pentes, maços de grampos, e o mais, que, acomodados em vasilhas de barro,
novas, ataviadas de flores e laçarotes de papel de seda, se deitam ao mar, na
meia-travessa da bahia, ou seja no leito da corrente que dela sae para o
Atlantico, e são conduzidos em barcos e saveiros embandeirados, ao som de
instrumentos africanos e do espocar de foguetes. Antes disso e depois disso, um
samba, um batuque arreliento,
arrojado, que se prolonga por horas sem conto. E aguardente como água. Claro está que só se utilizam da
meia-travessa para receptáculo dos presentes os pescadores ribeirinhos da
bahia. Os outros vão a pontos adrede elegidos, em pleno oceano.
Nos tres supracitados lugares de Itaparica ainda está em uso
a festa da Mãe d’Água, no dia de Nossa
Senhora das Candeias, comumente mas sem a animação de d’antanho.
Tradicionalista apaixonado, tive oportunidade, pêlo qual me dou parabens, de
assistil-a da Ponta d’Areia, em 2 de fevereiro
de 1929.
Os pescadores do Rio Vermelho tambem fazem ainda a festa dos
presentes, em fevereiro. No corrente ano efectuaram-na, mui modestamente, na
segunda quinzena do referido mez. Os da Barra, penso que já a esqueceram. Nas
armações de pesca de xaréo entre a Lagoa e o lugar propriamente dito Armação,
essa exteriorização do culto á fabulosa divindade permanece igualmente
amortecido. Tão ostentosa que foi outrora! A ponto de certo proprietário de
redes de xaréo, nessa costa, presentear anualmente a dona do mar com uma
escrava viva, negrinha ou mulatinha nova, que atirava ás ondas atada de pés e
mãos!
A mais pomposa festa dedicada á Mãe d’Água, - Iemanjá, segundo os africanos, - nesta capital, era a
que a gente de candomblé efectuava no terceiro domingo de dezembro, em
Itapagipe, defronte do arrasado forte de São Bartolomeu. Era uma folia de
estrondo, durante quinze dias seguidos, e comparecendo á mesma passante de dois
mil africanos e creoulos dos dois sexos. Todos os paes e mães de santo, ou de
terreiro, da Bahia, lá estavam, aqueles, segundo Manoel Querino (A Bahia de
Outr’ora, ed. De 1922), muito lordes, exibindo chapéos do Chile, ou de castor,
brilhantes em aneis e alfinetes de gravata, correntões e relógios de ouro; e
essas, quebrando sedas e gorgurões, carregavam quilos de balangandáns,
pulseiras e cordões de fino metal. Tambem atiravam presentes na meia-travessa,
constando, além do que já apontei, de comidas preparadas com azeite de dendê, e
carneiros e galináceos préviamente sacrificados, e também vivos, como o faziam
igualmente os pescadores de Itaparica, em relação a estes ultimos.
Os candombléseiros do
Gantois, da Mata Escura, do Engenho Velho, do Bôgum, do Pauzerré, e outros
lugares cercãos, iam botar os presentes no Dique, durante a festança anual
da rainha das águas. E, por fim, as lavadeiras da mais que centenária Fonte da Vovó, á rua da Vala e defronte do
bêco do Funil, que alcancei sombrada por uma gameleira ramulhada, e
frequentada por dezenas daquelas mulheres, não sei em que altura do mez de
janeiro, promoviam a festança em honra da sereia protectora do manancial, para
que o conservasse sempre abundoso. Durava a pagodeira dois, tres dias, com incrivel fartura de comidas azeitadas e apimentadas, dornas
de aguardente, um samba ininterrupto e, lá para tarde da
noite, - dado que o pagode atraia uma creoulada atrevida e turbulente, -
bordoada de criar bicho. Tambem davam presentes á sereia; agora, onde os iam
botar, não nei.
Veja-se bem como a crença na ficção oriental, emigrando
possivelmente das margens do Ganges sagrado, perigrinando pêla Grécia imortal,
e pêla velha Roma gloriosa, sintetizada em brejeiras ninfas e enganadoras
sirehas, veio encorporar-se á nossa mítica, escalando pêlo continente chamita,
e dramatizando-se, afinal, na orgia da Fonte da Vovó, e no candomblé de
Itapagipe.
Até que, enfim, vou chegar onde queria, depois de haver
impingido semelhante lengalenga ao próximo. Corre entre os pescadores do Rio
Vermelho a seguinte tradição.
Existia ahi, em dias bem longe idos (em 1803 o Mosteiro de São
Bento possuia no Rio Vermelho “um porto da armação da pescaria de xaréo” que
lhe foi legado por Fr. Agostinho de São Gonçalo), uma rendosa armação de pesca
de xaréo, o saboroso peixe tão estimado da gente pobre, e, outrora, tão ao
alcance da sua magra algibeira. Quando era tempo do pescado, as redes vinham em
termo de se romper. Um assombro. Os homens do pequeno arrebalde viviam
endinheirados. O dono da armação, nem se fala. Já estava podre de rico. Certo
dia, nas malhas de uma das redes lançadas ao mar, que era benta, como se usava
geralmente, veio enleiada uma sereia. O proprietário do aparelho, desejando viver
em paz com a gente de debaixo d’água, fel-a soltar imediatamente. Decorreram
anos. E o xaréo sempre a pontapés. Outro era o dono da armação, quando, pela
segunda vez, tornaram as redes a pescar uma sereia. Que fez o desabusado
sujeito? Depois de renhida luta, conseguiu agarral-a, levando-a á igreja do
povoado. Não sei se á extinta capela de São Gonçalo, ou á atual igreja de Sant’Ana.
Divergem os narradores da tradição. Celebrava-se a missa, na ocasião. A sereia,
cabiabaixa, envergonhada, por se ver no meio dos humanos, o formoso rosto e os
rijos seios cobertosd com a opulenta cabeleira, chorava em termo de se acabar.
Assim permaneceu no templo, sustentando-a dois pescadores pêlas axilas, por que
se mantivesse erecta, até que, terminada a cerimonia, soltaram-na á beira-mar.
Desde esse dia, nunca mais se pegou um xaréo, para remédio,
nas águas do porto de Sant’Ana do Rio Vermelho, apesar das oferendas que os
pescadores do lugar jamais deixaram de ir levar anualmente á Mãe d’Água.
SILVA CAMPOS. João da. Por que não se pescam mais xaréos no
Rio Vermelho. In: _____. Tradições
Bahianas – Separata da Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nº
56, 1930. Bahia: Secção Graphica da Escola de Aprendizes Artífices, 1930,
p. 63-67.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Silva Campos (1930): Santíssimo Sacramento do Pilar x Carmelitas
Segundo Silva Campos (1930, p. 59), em sua Memória sôbre o Estado da Bahia, Francisco
Vicente Viana declarou que “um ano depois de se estabelecerem no sítio então
conhecido por Monte Calvário, em 1586, fabricaram os religiosos do Carmo pequena
capela na marinha da cidade”. Entretanto, o Frei Manoel Baranera Serra,
superior provincial do Convento do Carmo, apurou que “o hospício foi fundado em
terreno cedido a 31 de Janeiro de 1686 por sesmaria do governador geral Dom
Antonio Luiz de Souza Telo de Menezes, marquez das Minas, ao padre Pascoal
Durão de Carvalho, passando-o este, por sua vez, aos frades carmelitanos por
escritura pública de 26 de Janeiro de 1691. Em virtude de insistente rogos ao
soberano, que se opunha com tenacidade, e por motivos de ordem economica, á
erecção de novas casa monásticas na sua colonia americana, permitiu a carta
règia de 21 de Março de 1714 aos preditos religiosos a fabricação dum pequeno
hospício”.
Ainda com base nos registros de Frei Manoel Baranera Serra,
Silva Campos informou que poucos padres habitaram a casa de estudos e que sua
construção na verdade fez parte de uma estratégia, o aumento do número de casas
de sodalício para criação da província carmelitada da Bahia, o que se
concretizou em 22 de abril de 1720. Como a construção do hospício obstruiu o
acesso dos irmãos do Santíssimo Sacramento do Pilar à marinha de que se serviam
e facilitou a prática de contrabado, houve contenda. Os vigários do pilar alegaram
que a construção se estendeu para além do que permitia a carta règia de 21 de
Março de 1714 e se colocaram contra a permanência dos frades ás portas da sua
Matriz, pois prejudicava a celebração dos actos religiosos e assistência aos
fiéias como dantes. Em 16 de Janeiro de 1755, Dom João V, ordenou ao vice-rei
Dom Marcos de Noronha, Conde dos Arcos, a demolição do hospício. Mas, tempos
depois, a ordem foi revogada e os carmelitas ainda construiram um plano
inclinado para transporte de gêneros e artigos vindos do Reino e de seus
engenhos no Recôncavo, destinados ao consumo e uso do convento.
Silva Campos descreveu o local já transformado em casa de
negócio: “Raros são os vestígios, além da disposição intrínseca do edifício,
que nos lembram a sua passada aplicação. Onde foi o presbitério, uns restos de
pintura a óleo. As portas que davam acesso ás sacristias, mostram bonita verga
em arco de volta abatida. Numa das referidas sacristias, a do lado do
Evangelho, apontaram-me um nicho aberto na parede, no qual se venerava a imagem
de Santa Ifigenia, segundo afirmativa do meu guia. A construção é
extraordinariamente sólida, apresentando as paredes mais de quatro plamos de
espessura, e estando todo o vigamento em perfeito estado de conservação”.
Segundo ele, diversas vezes desmoroamentos da montanha ameaçaram
soterrá-lo – como em 3 de Maio de 1748, quando várias casas foram derrubadas e
a terra o invadiu até a altura das janelas – e em 1866 “já estava êle deserto
de frades, e a igreja abandonada”. Embora não soubesse quando foi transformado
em trapiche, constatou que em 1921 estava alugado à Companhia Geral Comercial
São Salvador e que em 1922, para melhorar o ganho do aluguel, os carmelitas mandaram
retirar seu sino e detruir suas torres.
SILVA CAMPOS. João da. Santo Antonio de Campo Formoso. In:
_____. Tradições Bahianas – Separata da
Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nº 56, 1930. Bahia:
Secção Graphica da Escola de Aprendizes Artífices, 1930, p. 59-62.
Silva Campos: antigas capelas e hospícios (pequenas casas monásticas de estudos)
A capela da Conceição, ao Unhão […] já aberta ao culto em
1757, não obstante a data – 1797 – inscrita na arquivolta da porta principal,
indicando, quiçá, alguma remodelação, - essa capela está pura e simplesmente
transformada em moradia, há passante de cincoenta anos.
Fim idêntico estava reservado ao hospício dos Padres de São
Felipe de Neri, á Preguiça. A capelinha do Senhor dos Passos dos Humildes, á
rua do Tingui, foi derrubada, substituindo-a um prédio de dois andares dizem-me
que destinado a escola. A igrejinha da Massaranduba serve hoje de abrigo ás
alimarias do bairro. Finalmente, o antigo hospício do Pilar, dos carmelitas
observantes, […] defronte da matriz daquele nome, encontra-se transformado em
trapiche. “Trapiche Lúcia.” Ali onde, outrora, entoavam-se hinos ao Senhor dos
Exércitos […] e, em vez do odor místico de incenso, evolando-se de rendilhados
turíbulos de prata, a perfumar-se carinhosamente a nave, desprende-se acre
fartum das pilhas de sacos de cacau, de café, e de assucar, de fardos de fumo,
e de rumas de couros sêcos.
SILVA CAMPOS. João da. Santo Antonio de Campo Formoso. In:
_____. Tradições Bahianas – Separata da
Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nº 56, 1930. Bahia:
Secção Graphica da Escola de Aprendizes Artífices, 1930, p. 58-59.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
A casa das Sete Mortes, por Silva Campo (1930)
O prédio número vinte e
quatro da rua do Passo, sobrado de um andar, com o frontispício revestido de
azulejos […]. Reconstruiram-no em 1889, segundo um mármore existente ao alto da
vêrga da porta […].
Mas, porque Casa das
Sete Mortes?
No tempo que se passou
o facto que vou narrar, a rua do Passo não era mais que uma trilha escassamente
habitada, marginada por espêsso matagal, de onde emergiam ramalhudas árvores. Ainda
não existia a igreja matriz e, muito menos, pois, a larga escadaria que sobe da
ladeira do Carmo.
A casa em aprêço,
várias vezes modificada no correr dos anos, era o solar de apatacado lusitano.
Mais adeante residia outro portuguez, dono de um cachorro de estimação,
sobremaneira brabo. Certa feita, ao passar com o seu molosso pêla casa do
vizinho, o animal investio furiosamente contra um escravo daquele, e o negro
defendendo-se, matou-o. Sem nenum protesto, o senhor do cadelo tornou-se á sua
morada, tomou de acerada lamina, e foi invadir a casa do patrício,
inopinadamente, esfaqueando quantos topou, sem esguardar sexo, nem idade, nem
condição. Assim, o truculento reinol perpetrou ste cruais assassínios.
Esta tradição, diz-me
J. Teixeira Barros, ouviu-a o actual locatário do prédio em lide da bôca de
velho artista, septuagenário, quando este, há anos, o reparava, dizendo saber
do caso por imformação de seus avós.
Ouçamos, agora, o que
nos conta Melo Moraes, pae, no Brazil histórico, relativamente á tradicional
casa.
No meado do século
XVIII o proprietário do sobrado estava em renhida demanda com o ajudante ás
ordens do vice-rei, o qual entendeu de pôr fim á mesma eliminando o contendor.
Uma noite, achando-se a familia a cear, os mandatários do crime entraram,
trucidando o casal e os filhos, em número de sete pessoas. Só escapou uma
mulatinha, escrava da casa, a qual se escondeu dentro do forno, ainda quente,
dele não saindo senão quando ouviu cessar todo o rumor. A voz do povo acusou
unanimamente o mencionado ajudante, o qual foi preso, mas porque não se
encontrassem provas nos autos para a sua condenação, restituiram-lhe a liberdade.
SILVA CAMPOS. João da.
Santo Antonio de Campo Formoso. In: _____. Tradições
Bahianas – Separata da Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nº
56, 1930. Bahia: Secção Graphica da Escola de Aprendizes Artífices, 1930,
p. 51-54.
Marcadores:
Arquitetura Civil Histórica,
Casa das Sete Mortes,
CHS - Passo,
Silva Campos
quarta-feira, 4 de março de 2015
Silva Campos: O Machado da Boa Vista
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| Postal J. Mello colorizado, 1904, com título "Azylo São João de Deus, Bahia". Fonte: http://www.cidade-salvador.com/patrimonios/boavista/boa-vista-antiga.htm |
Funciona o asilo de alienados de S. João de Deus, desde 24 de
junho de 1874, na antiga Fazenda Boa Vista, da qual foi proprietário e morador, em princípios do século passado
[XIX], um fulano Machado, mais conhecido por Machado da Boa Vista […]. Sob o
tecto do velho solar do Creso bahiano viveu depois Castro
Alves: que ahi foi residencia e casa de saúde de seu pae, o Dr.
Antônio José Alves.
O flanco esquerdo e o
fundo do terreno do asilo, ainda como no tempo de Machado, estão à margem do caminho do Engenho (p. 7) Velho […] o qual vae dar á estrada Dois de Julho, no lugar denominado
Muriçoca, onde forqueava-se, seguindo um ramo ao longo do rio da Lucaia, até o Rio Vermelho, ou seja por onde correm hoje
os trilhos do bonde. Galgava o outro a colina fronteira, com o nome de estrada do Bôgum, povoada de lôcos, ou árvores sagradas dos africanos, e de terreiros
de paes-de-santo, curandeiros, e casas de candomblé, - pêlo menos
alcancei-a assim, uns vinte e muitos anos atraz, - indo desembocar no caminho de cima do Rio Vermelho,
próximo á capelinha da Madre de Deus.
Todas as terras da Mata Escura, do Engenho Velho e da Lucaia foram dantes
conhecidas pêlo nome de – roça dos Machados.
Gozava o homem de geral
simpatia e influência entre os filhos da terra, seus compatrícios. Porém os
reinós desamavam-no, acoimando-o de prepotente, contrabandista, e conspurcador
de virgindades. Bom ou máu, tal era o valimento por êle desfrutado, que se um
preso, ao passar em frente da sua residência, corria a agarrar-se á cancela, ou
mesmo a um dos moirões da cêrca, invocando: - “Valha-me, seu Machado!” pronto,
estava salvo. Ahi estava irremediavelmente livre da enxovia, porquanto ninguém
tinha coragem de ir arrancal-o dali. Abandonavam-no os soldados, eclipsando-se
num relampago. Que o potentado não era para graças, e acudilhava-se duma
cabroeira atrevida.
Como já se ouvissem
na Bahia cochichos de independência do paiz, as autoridades coloniaes, a
partir do capitão-general, que era o conde
dos Arcos (1810-1818), dele muito se arreceavam, trazendo-o cuidadosamente
vigiado.
Imprimindo-lhe curioso
aspecto, singular na cidade, sôbre o angulo posterior esquerdo do anoso casarão
ergue-se uma tôrre quadrada, com quatro pavimentos acima do sobrado. Outrora
possuia cinco, ou seis. Não estou bem certo. Das janelas do último, - cuja face
anterior ostenta um relógio, coroando-o um campanario singelo, de cujo frestão
se pendura emudecido sino, - abarca-se larga, variada e emplgante perspectiva,
derramada por todos os quadrantes (p. 8).
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| Postal Almeida & Irmão, circulado
em fevereiro de 1938. Fonte: http://www.cidade-salvador.com/patrimonios/boavista/boa-vista-antiga.htm |
Ao sopé da enconta jaz
o Dique […] alteando-se do lado
oposto, em seguida, o casario policromo da cidade, eriçado de zimbórios e coruchéos.
Compacta na parte central, vae-se disseminando a edificação nos seus extremos,
até rarear acentuadamente no sector de nordeste-norte-noroeste, cingiondo-a,
ensalsando-a, afogando-a, por todos os lados, em todos os planos do horizonte, o verde vibrante da vegetação arborescente, basta e frondosa que
impera na movimentada paisagem da gleba soteropolitana, cuja feição panorámica,
por este motivo, é única entre a de todas as grandes cidades brazileiras.
Para além da orgia
verde que pompêa dentro do numeroso torrão salvatorense, o mar, ilimitado a léste e ao sul, balizando este rumo o
perfil cendrado do morro de São Paulo,
que se distingue a olho nú, emergindo das ondas atlanticas; e, de sudoeste a
oeste, águas do golfão, contidas pelas terras do Reconcavo ubérrimo,
divizando-se deste lado, a binóculo, os lendários templos do Monte e das Candeias. Ao nascente passam vapores, carregando no seu bojo ilusões e desilusões; aparecem velas brancas de jangadas, como
enormes mariposas que adejassem o oceano. Maravilhoso painel!
Num dos andares daquela
tôrre, que para os bahianos devia ser sagrada, o divino Cecéo teve os seus
aposentos, e ahi lhe espontaram na imaginação muitas das suas imortaes poesias
[…].
Ora, do alto da tôrre,
Machado descobria todos os navios que demandavam a barra, fazendo sinaes aos
que lhe traziam contrabando. Segundo outros, do empinado sito vigiava
constantemente e alguma nau de guerra se aproximava, e vinha, talvez, por
conduzil-o preso ao Reino. Terceira versão, e única merecedora de crédito.
Possuia Machado crescido número de embarcações, e dali, sempre que uma vela
surgia no horizonte, como o Pedrossem (p. 9) ou Pedro Cem da tradição
portuense, empunhava o óculo de alcance com o fito de examinal-a, a ver se eras
das de sua propriedade.
Extenso subterraneo, de
entrada e saída secretas, conduzia á margem do Dique, garantindo-lhe segura
retirada, no caso de se encontrar ameaçada a sua liberdade. Ou seria
esconderijo da sua ourama e prataria. Se é um facto, ou pura lenda, a
existencia de tal galeria, ainda hoje poder-se-ia apurar. Por mais de uma vez
ouvi de antigos funcionários do asilo que se fazendo uma escavação nos fundos
do edifício, não sei a que fim, toparam-se vestígios de uma construção
subterranea, de pedra e cal, e moedas de cobre muito antigas […].
Fundeou certo dia em
frente á cidade um navio de guerra de sua majestada fidelíssima, vindo com o
pretexto de efectuar sondagens na bahia. Que da procedencia de todas as
embarcações aportadas Machado cuidadosamente indagava, receoso como vivia, por
ser objecto das desconfianças do govêrno da colonia.
Em breve espaço de
tempo o comandante da nau teve arte de se meter de amizade com o ricaço. Todos
os domingos, passeavam os dois a cavalo, - desporto, outrora, muito da
predileção do burguez bahiano; - e jantava o marujo no solar da Boa Vista.
Então, nas suas palestras, o oficial aludia sempre á marcha dos trabalhos que
chefiava: em tal ponto, assim, assim, a bahia tem tantos metros de profundidade;
em tal outro, tantos; e dêsse jeito por deante. Que quando foi um dia de festa
real, Machado recebeu convite do amigo recente para ir jantar a bordo do seu
navio, e visital-o.
Muito cheio de si, pois
afirmara-lhe o mesmo, que, excepto o conde general, ninguem mais tivera a honra
de ser alvo de semelhante distinção, Machado encontrou-se mui cedo pizando o
convez da belonave, todo chibante, todo almisracado, exibindo as suas mais
finas vestes, e mais custosos atavios.
Decorridos alguns
minutos apoz a sua chegada a bordo, encostou num batel, dêste saltando dois
guapos oficiaes, declarando não ter sido possivem a Dom Marcos de Noronha comparecer
á nau (p. 10), fazendo-se entretanto representar por êles, que pertenciam á sua
ala de ordens. Nada! Simples codilho. Os dois militares faziam parte da
guarnição do vaso de guerra…
Ao entardecer, depois
de animada prosa, de haverem percorrido o navio de cima a baixo, de emborcarem
iterados codórios, sentaram-se á mesa. O bródio foi lauto, sendo Machado
objecto das mais requintadas atenções por parte de toda a oficialidade. Um
encanto. Nunca imaginara ver-se metido em semelhantes funduras, não obstante os
seus milões de cruzados. O arranjo da sua sala de jantar, a riqueza da sua baixela,
o sabor dos seus vinhos, a variedade e o preparo dos pratos da sua cozinha, e o
serviço da sua famulagem eram ridiculos, em comparação com o que testemunhava
naquele banquete sob a coberta da alterosa fragata d’el-rei de Portugal, cuja
artelharia disparara fragorosamente ao pôr do sol, robombando pêlas quebradas
verdejantes do Recôncavo.
E da cidade, pensou,
era êle o único ali presente! Onde estavam áquela hora os nobres da terra, que
só viviam a alardear limpeza de sangue, a esmerilhar linhagens, e a ostentar
brasões? Onde estavam áquela hora os emproados descendentes de façanhudos e
truculentos barbaças, campeadores de mouros, galegos leonezes e castelhanos,
no tempo em que Adão era cadete; do famoso Egas
Moniz, vo velho Garcia d’Ávila,
e do Diogo
Alvares, o solerte vianez que
viveu vida folgada e milagrosa pêlas amenas paragens da Graça e da Vitória,
fazendo de sultão da bronca gente tupinambá, amimado e disputado pêlas Venus
cor de cobre? Onde se encontravam
áquela hora os orgulhosos Pires, Sodrés,
Goes, Bulcões, Vianas, Monizes, Rochas Pita, Aragões, Albuquerques, Argôlos,
e outros de igual prosápia? Mergulhados no tédio costumeiro dos seus
sorumbáticos casarões, enfiados nos seus chambres, nos sdeus barretes de
dormir, atafulhando as ventas de simonte, e cavaqueando puerilidades. Ao passo
que êle se achava de gorra com tão distinta rapazeada, saboreando finíssimas
iguarias, como só mesmo na côrte se sabiam preparar, e entrando na pinga
legítima de Braga. Moer-se-iam de inveja, quando de tal soubesses (p. 11).
Importar-lhe-ia muito! O seu ouro, afinal de contas, valia bem os pergamihos
deles, E, a impar de satisfação, levantou-se, erguendo a sua taça, num brinde á
meajestada real, que, por certo, não seria nenhuma obra prima de oratória […].
Ancorada em posição
adrede escolhida, a fragata levou os ferros, logo ao escurecer, sendo o
ruídonda faina mascarado pêlo troar das peças, e ficou amarrada a uma boia.
Quando começou o refluxo da maré, - caía o nordeste, como habitualmente
acontece, á noite, nestas paragens, - içou os cutelos, desprendeu-se da boia, e
fez proa para a entrada da bahia. Algum tempo depois, eil-a a arfar
descompassadamente. Sentiu Machado a pulga atraz da orelha, e, sem atender às
explicações da companhaia, saiu célere á coberta. Estava clara a noite, e viu
logo que o navio, de velas desferradas, vogava já fora da barra. Pedindo
explicação do facto ao presumido amigo, que o seguira, poz-lhe este a mão sôbre
o ombro, respondendo:
- Vossa Mercê está
preso, em nome de sua majestade.
Segundo reza a
tradição, a propósito da qual não li até hoje a menor referencia, o próprio
capitão-general ignorava a missão que trouxera a fragata ao porto da cidade.
Que de verdade se
conterá nesta historia? Será protagonista da mesma o negociante Manoel José Machado,
que o Principe Regente Agraciou com o habito de Christo, em 1808, quando de
passagem para o Rio de Janeiro? Baltazar da Silva Liaboa, nas “Memórias da
Capitania de Ilhéus”, conta de maneira semelhante a prisão de Sebastião da Ponte, o lendário régulo
da Bahia quinhentista, na bahia de Tinharé, pêlo comandante de um navio real
(p. 12).
SILVA CAMPOS. João da. O Machado da Boa Vista. In: _____. Tradições Bahianas – Separata da Revista do
Instituto Geográfico e Histórico da Bahia nº 56, 1930. Bahia: Secção
Graphica da Escola de Aprendizes Artífices, 1930, p. 7-12.
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