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terça-feira, 3 de abril de 2012

Centro Histórico no século XX

MATTOS, Waldemar. Evolução histórica e cultural do Pelourinho.
SENAC, Rio de Janeiro, 1978, p. 28-33:



SÉCULO XX


As transformações sociais iniciadas nos fins do século X1X converteram o Pelourinho em área proletária, a partir da década de 30, asfixiada por formigueiros humanos. Toda redondeza sofreu o impacto violento que se processou com a queda da economia rural, desmoronada após a abolição da escravatura, a 13 de maio de 1888.

As casas não satisfaziam mais às necessidades da era que se iniciara. Os padrões arquitetônicos tornaram-se obsoletos. Toda zona desvalorizava-se social e economicamente. Impunha a saída dos moradores abastados ao tempo em que exercia poder de atração sobre grupos que ali chegavam, cujos pequenos ganhos limitavam suas despesas, e tinha grande importância a localização da residência próxima ao local de trabalho.

Na primeira década de 1900, figuras das letras jurídicas moravam no Pelourinho. Na praça José de Alencar, Dr. João Pedro dos Santos, promotor público em Nazaré, secretário de Estado, nos governos de Severino Vieira e José Marcelino de Sousa, depois deputado federal, No Maciel, desembargador João Nepomuceno Torres, do Tribunal de Apelação e Revista, Na rua do Passo, José Joaquim Landulfo da Rocha Medrado, do Tribunal de Conflitos e Administração, e Joaquim Ribeiro dos Santos, oculista.

Funcionou no largo do Carmo (1910-1911), o Cinema Castro Alves, de propriedade da firma Bitencourt & Mota, constituída pelo farmacêutico Leonardo Pompílio Bitencourt e Joaquim Alves da Silva Mota.

No largo do Pelourinho, correr da Igreja do Rosário dos Pretos, residiram integrantes da Familia Teixeira, antiga e tradicional estirpe sertaneja: Coronel António José Teixeira, casado com Madalena da Silva Teixeira e os filhos: Rogociano Pires Teixeira, Antônio José Teixeira Júnior, e Deocleciano Pires Teixera, doutor em medicina, chefe politico em Caetité, pai de Anisio Spinola Teixeira cuja “vida foi transcorrida numa sucessão de fatos e de experiências de transcedente importância para o desenvolvimento da educação”.

Almáquio Diniz, “o maior polígrafo nacional”, na opinião de Silvio Romero, em Bodas Negras, “o romance de uma pequena cigana”, publicado em folhetins da Gazeta de Noticias, 1912, e, depois, em livro, Lisboa, 1913, numa concepção estética alheia às novas correntes do pensamento, fixa aspectos da vida social do Pelourinho, vinte anos depois comentada em linguagem modernista, caracterizada com a ruptura das tradições acadêmicas. As cenas de amor são descritas num estilo meigo, de doçura, adotado por Afrânio Peixoto, em sua obra de ficção. Aparecem configuradas em reticências, com o correr dos anos ao vivo... “A sua felicidade?.. O seu casamento?... A sua noiva.., — perguntava ela, ingenuamente, descendo as Portas do Carmo, a quem encontrava, madrugada. às portas de suas casas... No largo do Pelourinho: “Passando pelas entradas abertas da igreja do Rosário, Júlia traçou uma aligeirada cruz, com a mãozinha direita aberta, indo da testa ao peito e do ombro esquerdo ao direito: tinha diminuído os passos, olhando arrebatadamente para as pequenas luzes que divisava, do meio da rua, no interior do templo. Repentinamente arrependeu-se do que fazia, e rompeu, de novo, a sua marcha, ladeira abaixo. Passos adeante, na soleira de uma taverna, estava um pequeno ajuntamento de gente de vários instintos. E dentro, repimpada num pequeno banco de madeira. uma negra, de moles carnes, pala luzidia, carapinhas retorcidas, enchia e reenchia as tijelas do saboroso mingau de milho, que a numerosa freguesia servia, chuchurreando os próprios lábios, e mastigando o pão do dia, muito fresco, comprado, ali mesmo, no balcão da taverna. A vendeira não descansava. Os seus braços iam e vinham na distribuição do vasilhame cheio e no asseio do servido. Naquele movimento, a alva camisa arrendada da mulher, descia-lhe pelos ombros rotundos e carnudos, por vezes abrindo um vazio, para a frente, quando ela inclinava a cabeça sobre a tina da lavagem, de modo que os circunstantes lhe apreciavam duas desenvolvidas tetas, muito livres naquele jogo certo de vai-e-vem...”

Na esquina do largo do Pelourinho com a rua Agostinho Comes, ficava a Farmácia Falcão,onde se acha, presentemente, o Varejão, no começo do século, de Manuel da Silva Oliveira Peixoto. Até a década de 30, tornou-se ponto de reunião dos politicos militantes nas freguesias da Sé e do Passo. Na parte da tarde, dava consultas o Dr. Otaviano Rodrigues pimenta, “um dos representantes da plêiade dos caridosos facultativos, que assinalaram, no seio da população, o principal valor do sacerdócio da medicina”. Político de conceito na povoação de Paripe, vindo do século passado, conselheiro municipal, de 1904 a 1907, e de 1916 a 1919, presidia às tertúlias, onde passava em revista os últimos acontecimentos ocorridos na cidade. Cor trigueira, circunspecto, trajava pesado terno de casimira inglesa, escura, colarinho duro, à moda Cosme de Faria, seu contemporâneo de luta politica ,em campo oposto.

Subindo o largo, ficava a Panificação e Pastelaria Águia Central, de Lauriano Martinez y Hermanos, com filial na rua Dr. Seabra.

Segue-se o prédio n.° 25, que pertenceu a um português e onde, na década de 20, funcionou, no último andar, a pensão do poeta Enedino Paulo Abud, nascido a 7 de novembro de 1894, em Aracaju, e falecido a 1 de maio de 1974 na Cidade do Salvador, de ascendência árabe. No pavimento térreo do sobrado n. ° 9, funciona “O Tempo”, primeira casa folclórica do Pelourinho. “Seu proprietário, Joaquim, filho de santo ‘‘feito” na casa de Neiva Branca, conta que, no começo, ele se instalou na casa n.° 3, onde passou cerca de cinco anos, vendendo as bebidas afrodisiacas e o tradicional sarapatel”. Dali saiu para o n.° 18. “Seguiu-se mais dois meses no Terreiro de Jesus e a volta a casa verde, quase esquina com o Museu da Cidade. Ali, ‘O Tempo” conheceu artistas nacionais e internacionais, autoridades dos mais altos escalões, intelectuais, homens de imprensa, o povo e os visitantes, atraídos pelo exotismo da casa decorada com  os raros apetrechos do culto afro-baiano”.

Do outro lado da praça, em 1965, funcionava no prédio n.° 16, a Farmácia Seles, com variado estoque de medicamentos, perfumarias nacionais e estrangeiras. No n.° 18, a Casa Ramos, especialista em discos antigos e usados.

No vértice disfarçado do largo do Pelourinho havia um chafariz, próximo da casa onde residia o Dr. Aristeu de Andrade, “médico mulato, alto e muito popular”. No centro, a feira-livre, transferida para o largo de São Miguel, “para não estorvar o trânsito”.
Atualmente, Aloisio Sousa Aguiar, serventuárïo da Justiça, com incursão pelo jornalismo, nas colunas do Díário de Notícias e A Tarde, é o único remanescente das letras, radicado no Pelourinho.
No campo das artes plásticas, registra-se a presença de Valter Góes, nascido a 7 de dezembro de 1931 no largo, pintor-restaurador, com estúdio localizado no sobrado n.° 7, segundo andar. Tomou cursos livres na Escola de Belas Artes e com o mestre João José Rescala. Trabalhou na restauração das igrejas da Catedral Basílica, Conceição da Praia, Bonfim, Santana, e na Pinacoteca da Santa Casa de Misericórdia. È mais conhecido no exterior do que na Bahia. Seus quadros são encontrados na Itália, Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, Estados Unidos e Austrália.

[...]

Em 1914, segundo depoimento de Miguel Santana, antigo morador na área, a zona do Passo era uma extensão do Pelourinho, ocupada por “operários, carregadores, negros de canto, vendedores ambulantes de comida, pequenos comerciantes, alfaiates, cabeleireiros, árabes e turcos”.

[...]

Em 1916, José Meneses Nogueira fundou o Café Americano, no Tabuão, torrefação esmerada de café das melhores procedências da Bahia.

Na segunda década, a maior concentração de espanhóis, árabes e sírios, de várias procedências chegados á Bahia, incidia nas Portas do Carmo, Pelourinho e Tabuão. Datam do fim do Império as “levas de imigrantes” que se dirigiam as cidades em busca de mercado de trabalho, A medida que essa nova classe de imigrantes enriquecia, com os lucros obtidos no negócio de miudezas, das casas de pasto, das oficinas mecânicas que se aglomeravam de preferência no Tabuão, onde predominava o ramo de artefatos de couro, monopolizado por italianos, procuravam os bairros da Vitória, Graça e Barra. Atraídos pelo comércio de imóveis, de maior rentabilidade, num gesto de ingratidão, abandonaram a atividade que lhes assegurara posição de relevo na sociedade, com o dinheiro de comerciários, doqueiros, motorneiros de bondes, carregadores, soldados de policia e prostitutas.

Abdale Gaid, sírio, único homem, no Brasil que chegou a possuir um Rolls-Royce último tipo, — sinal de status, tinha casa comercial nas Portas do Carmo.

Na área do Pelourinho, lado esquerdo, está o comércio do Tabuão que começa na Cidade Baixa, em frente ao elevador do mesmo nome e se une ao da Baixa dos Sapateiros. No começo do século, contava com catorze casas: sete lojas de fazendas e sete de miudezas.

Na ladeira do Carmo, principal artéria de acesso ao largo do Carmo, predomina a morada coletiva.

A rua das Flores é praticamente uma extensão da rua Dr. Seabra. Na casa n.° 13 do Maciel, que faz esquina com a ladeira de São Miguel, nasceu Maria Antônia Barreiro Lopez, técnica em restauração, filha de Manuel Barreiro y Barreiro, natural da Espanha, proprietário do prédio e da casa de penhor e joalheria “07”, na rua José Gonçalves (Viaduto da Sé).

O comércio do Pelourinho é variado: bares, casas de pasto, barbearias, quitandas, encanadores, marcenarias, ferro velho, sapateiros e depósitos.

[...]

As repúblicas de estudantes, nos “caga-fumos” americanizados em dancings, as pensões clandestinas, os “castelos” incontroláveis pela polícia, tomaram conta do Pelourinho, a partir da década de 30.

A policia, por volta de 1932, quando delegado o advogado Tancredo Teixeira, deslocou as meretrizes da rua Nova de São Bento, beco Maria Paz (Sabino Vieira), Carlos Gomes, e concentrou-as, desordenadamente, no bairro do Maciel, em franca decadência, de calçamento irregular, passeios quebrados e casario secular parcialmente deformado, caracterizado pela predominância da morada coletiva, sendo o cômodo a unidade habitacional, pondo em relevo o principal traço de sua população, ou seja, a falta de condições econômicas. Com a demolição das ruas que cederam lugar à praça da Sé, na gestão do prefeito Durval Neves da Rocha (1938-1942), o problema tomou aspecto constrangedor. Pelas fresta dos quartos de tabique amontoados de trastes usados, vêm-se os casais famintos de desejo, em acasalamento, na prática do delírio erótico, desvairados, sem o requinte da arte e da poesia das alcovas alcatifadas. A prostituta, semi-nua, cabelos desgrenhados, alquebrada das lutas sexuais brutais, dormindo a sono solto, em estado de abandono.

Pelourinho: zona de cortiços célebres. Ali, Herman Lima e Jorge Amado passaram parte da juventude. O primeiro, no prédio n.° 2, da rua da Laranjeira; o segundo, num sobrado das Portas do Carmo.

Nas sacadas dos sobrados do Maciel, Laranjeira, 5. Miguel, Ordem 3ª  de S. Francisco e Santa Isabel, muitos deles assinalados com os brasões das ordens religiosas proprietárias desses imóveis, em tempos idos, floridos com a presença e poderosas matronas e de sinhazinhas, contemplam-se, hoje, as mulheres públicas em algazarras...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Centro Histórico no século XIX

MATTOS, Waldemar. Evolução histórica e cultural do Pelourinho.
SENAC, Rio de Janeiro, 1978, p. 23-28:


Século XIX

Antes da demolição das muralhas centenárias do sistema de fortificação da cidade seiscentista, a rua das Portas do Carmo terminava no fim do Maciel de Baixo, de onde partia estreita rua que desembocava na Baixa dos Sapateiros. Do lado direito divisava-se a Igreja do Rosário dos Pretos, completamente isolada. Depois da demolição, levantou-se o quartel do Rei e Corpo da Guarda das Portas do Carmo, servindo de base pedaços de alvenaria restantes do antigo esquema defensivo da cidade seiscentista.

Os terrenos em que se efetuaram as duas construções citadas foram doados ao Conselho da Cidade do Salvador por alvará de 15 de dezembro de 1686, subscrito pelo governador e capitão general do Estado do Brasil, D. Antônio Luis de Sousa Teles de Meneses, Marquês das Minas. “..., uns chãos que estão nas portas da Cidade, do Carmo, indo para fora à mão direita, indo pela ladeira abaixo aonde chamam os Sapateiros”.

A 19 de dezembro do ano supra, o procurador do Conselho da Cidade, capitão Baltazar Gomes dos Reis, “tomou posse dos ditos chãos”, cuja doação foi lavrada em notas do tabelião Gonçalo de Sousa Freire, em presença das testemunhas Cristóvão Ramires Madeira e Aleixo Gonçalves Chaves.

Gilberto Freire, em Sobrados e Mucambos, Rio, 1961, consigna que a partir do começo do século XIX, “a rua foi deixando de ser o escoadouro das águas servidas dos sobrados, por onde o pé calçado de burguês tinha de andar com jeito senão se emporcalhava todo, para ganhar em dignidade e em importância social. De noite, foi deixando de ser o corredor escuro que os particulares atravessavam com um escravo à frente, de lanterna na mão, para ir se iluminando a lampião de azeite de peixe suspenso por corrente de postes altos. Os principios de iluminação pública. Os primeiros brilhos de dignidade da rua outrora tão subalterna que era preciso que a luz das casas particulares e dos nichos dos santos a iluminasse pela mão dos negros escravos ou pela piedade dos devotos.

Ao mesmo tempo, a partir daquela época, as posturas municipais começaram a defender a rua, dos abusos da casa-grande que, sob a forma de sobrado, se instalara nas cidades com os mesmos modos derramados, quase com as mesmas arrogâncias, da casa de engenho ou de fazenda: fazendo da calçada, picadeiro de lenha, atirando para o meio da rua o bicho morto, o resto de comida, a água servida, às vezes até a sujeira do penico”.

Ao sul do largo do Pelourinho, construiram-se as casas onde funciona a agência do Banco do Estado da Bahia e a sede do Museu da Cidade. Junto à Igreja do Rosário dos Pretos, o sobrado de João Rodrigues Germano, palco de fatos memoráveis no Pelourinho.

A rua das portas do Carmo aumentou além da “Travessa da Rua das Portas do Carmo para o Maciel”, com o acréscimo de novas casas, do lado do poente e prolongou-se com a denominação de “Ladeira que desce das Portas do Carmo para a Baixa dos Sapateiros” (1802). Principal via de acesso para o norte, flanqueava o Castelo, do lado esquerdo.

As novas construções do Pelourinho modificaram, por completo, a fisionomia da praça, outrora seccionada ao meio com as muralhas das Portas do Carmo.

O Almanaque para a Cidade da Bahia, de 1812, relaciona elevado número de moradores categorizados, do clero, da administração e das guarnições militares. Nas Portas do Carmo, residiam José Francisco Cardoso de Morais, secretário e deputado da Mesa da Inspeção; Paulino da Silva Lisboa, tesoureiro da Mesa da Constituição para as despesas da Real Junta do Comércio; José Francisco Cardoso, professor de Latim. Travessa do Açouguinho: sargento-mor Manuell Gonçalves da Cunha, do Corpo Militar, e o ouvidor da Comarca José Raimundo de Passos de Porbem de Barbosa. Rua da Laranjeira: cônego Manuel Anselmo de Almeida Sande, deputado numerário; padre Jerônimo de Santana Braga; Cassiano Espiridião de Meio e Matos, Juiz da Balança da Casa da Moeda. São Miguel: padre Francisco José Verissímo Pimentel, Maciel: deão da Sé, Manuel de Almeida Maciel; arcediago Manuel Marques Brandão; padre José Lopes Vieira Brandão; Pedro Gomes Ferrão, diretor da Biblioteca Pública; Luis Pereira Sodré, deputado da Mesa da Inspeção, indicado pelos Lavradores de Açúcar; tenente-coronel José Francisco de Sousa e Almeida; capitão José da Gosta Xavier; sargento-mor Antônio Joaquim Correia de Morais. Ladeira do Carmo: os padres José Joaquim de Brita e Vicente Ferreira de Olveira.

A fonte citada não registra moradores no Largo do Pelourinho,  confirmação evidente da que o número de casas nas duas primeiras décadas do século passado era insignificante.

No primeiro andar do sobrado da esquina das Portas do Carmo, com frente para o Terreiro de Jesus, conhecido por Casa do Banco, a 2 de janeiro de 1817, o Banco da Bahia, primeira filial do Banco do Brasil, iniciou suas atividades — a pedido de alguns negociantes desta praça. Primeiro estabelecimento bancário da Bahia, destinado “a facilitar as operações mercantis, a extensão do comércio e prosperidade da agricultura” contou com o apoio dos seus principais acionistas: Pedro Rodrigues Bandeira, Felisberto Caldeira Brant e Manuel Joaquim dos Reis, expoentes das finanças. O banco ou caixa de descontos foi mandado estabelecer nesta capital por carta patente de 1B de fevereiro de 1816: ‘Haverá na cidade da Bahia uma caixa de descontos, estabelecida pelo Banco do Brasil”.

Entre 1808 e 1821, as cidades se transformam. “Têm insistentes motivos de sedução das populações rurais, As casas renovam-se, generaliza-se o hábito de transportar-se o senhor de engenho do solar do campo para o da cidade na estação invernosa, os governos melhoram a topografia, a higiene, o policiamento, a iluminação dos centros urbanos”.

Impressões, criticas, idéias, modificaram os costumes da era oolonial, em franca decadéncia.

O começo da rua das Portas do Carmo denominava-se de Canto do Peixe, “por haver ai uma quitanda de pescado”. Do lado esquerdo, perto do [argo do Pelourinho, “havia um càrredor” que dava “passagem aos jesuitas”. Diz Melo Morais, pai, servia “de porta de comunicação para uma pequena chácara” que ficava “nos fundos das casas da mesma rua”, do lado da encosta, ocupada pelo prédio da Faculdade de Medicina,
Em 1866, Melo Morais fala da existência de “parte das muralhas do Castelo das Portas da Carmo, junto ou fazendo parte da parede lateral da casa nobre, no começo da ladeira da Baixa dos Sapateiros, pegada à Igreja do Rosário, que foi do coronel Manuel José Vilela, pelo lado nascente e do poente, na casa em que residia e é proprietário o antigo advogado bacharel em direito José Joaquim dos Santos”.

Na década de 60, morava às Portas do Carmo, Dr. Torquato Rodrigues Dutra Rocha, delegado das Terras Públicas, e o vigário Próspero Ferreira de Sousa. Maciel de Baixo, monsenhor João Pereira Ramos, desembargador da Relação Eclesiástica e professor de Direito Canônico no Seminário Arquiepiscopal. Largo do Pelourinho, os cônegos: Lino Rodrigues Alvim e lnocêncio Moreira do Rio, nomes expressivos do Cabido Metropolitano.

A desocupação da área do Pelourinho, por seus moradores primitivos, data do terceiro quartel do século. Os proprietárias dos imóveis arrendavam ou vendiam a comerciantes, transferindo-se para os novos bairros que se formavam na zona sul da cidade — cujas construções se adequavam melhor ás necessidades criadas pela crescente urbanização.

Na antiga chácara dos jesuítas, às portas do Carmo, contíguo ao Hospital “pelo lado posterior”, havia “uma enfermaria especial para variolosos”.
Na década de 70, o clero secular extendeu-se por quase todas as ruas do Pelourinho: Cruzeiro e ladeira de 5. Francisco, Laranjeira, Passo e Flores. Concentrava-se nas freguesias da Sé e do Passo, integradas de uma dezena de templos religiosos: Catedral, antigo Colégio dos Jesuítas; Misericórdia, Sé, Convento e Ordem Terceira de S. Francisco, S. Pedro dos Clérigos, São Domingos, Ajuda, São Miguel, Rosário dos Pretos, Passo, Convento e Ordem Terceira do Carmo. [...]

Os primazes moravam no imponente palácio Arquiepiscopal, da praça da Sé, atualmente sede da Arquidiocese da Bahia, construído por D. Sebastião Monteiro da Vide, V Arcebispo da Bahia.

A frequência dos padres nas vias públicas, dia e noite, para atender aos mandamentos da Igreja era constante. Não causava surpresa aos moradores. Todos admiravam o desvelo dos humildes servos de Deus pelas ruas escuras, silenciosas, mal assombradas, pregando a fé do Cristo.

A saida do Viático, solene, — Nosso Pai, ou Senhor Fora, como dizem os portugueses. — para os moribundos, anunciada pelos sinos das matrizes da Sé e do Passo, angustiava, alarmava os moradores. Uma pergunta de espanto, saía de labios aflitos: — Quem está passando mal, já nas últimas?...

“Eram aqui exatamente como no Recife, segundo Mário Sete, umas “chamadas lentas, tristes, repetidas”. Se homem o enfermo, sete badaladas. Se mulher, cinco. Davam ciência de encontrar-se alguma parturiente em perigo de vida. Toques especiais, estes, ainda privativos dos sinos das matrizes, e hoje absolutamente dessuetos, desde há muitos anos. Convidavam ambos os sinais à oração pelo que se estava a findar, pela que se encontrava em risco de vida para dar vida a outra criatura. Quem será, meu Deus? perguntava-se ao ouvir o primeiro. Mulher de parto! exclamava-se ao ouvir o segundo”.

Decorrido mais de um século, um sacerdote por aqueles logradouros dominados pela prostituição, é motivo de comentários desairosos, ultrajantes. A condição de guia espiritual desaparece diante da calúnia, da suspeita. O progresso transformou salões e quartos dos solares nobres, de tetos apainelados que já não atendiam às exigências do conforto, outrora, recintos sagrados de orações e meditações, em cortiços, divididos por tabiques. [...]

Quase todas as ruas eram assinaladas com a presença de médicos e advogados. Habitavam no Pelourinho: Antônio Joaquim da Silva Gomes, desembargador do Tribunal da Relação da Bahia; Dr. José Inácio de Oliveira, médico interno do Hospital da Santa Casa; comendador João Rodrigues Germano. Baixa do Pelourinho, Teodoro Vieira do Couto, farmacêutico do Hospital Militar. Às Portas do Carmo: Dr. Gustavo Aniceto de Sousa, procurador dos Feitos da Fazenda: Adriano José Leal, Juiz de Direito do Comércio; capitão-tenente da Armada Lourenço Elói Pessoa de Barros, engenheiro das Obras Públicas; Manuel de Sousa Campos e Arnaldo Lopes da Silva, membros da direção do Banco da Bahia. No fim da rua, funcionava a Sociedade de Beneficiência Fraternidade Sergipana. No Maciel de Baixo, residia Paulo Joaquim da Mata, inspetor de Visita da Saúde do Porto e Antônio José Correia Machado, arquiteto da Província.

No Pelourinho, n.° 4, residência de Frederico Marinho de Araújo. advogado dos escravos, ficava a Sociedade Libertadora Sete de Setembro, presidida por José Luís de Almeida Couto, político, mais tarde, presidente da Província. A jovem agremiação fundada a 7 de setembro de 1869, quando a luta pela escravidão abalava a estrutura conservadora do Império de norte a sul, desfraldava a bandeira da libertação dos escravos e ateava a chama das idéias abolicionistas. A 7 de março de 1871, passou a contar com O Abolicionista, periodico quinzenal. Frederico Marinho de Araújo, primeiro secretário, da Sociedade, instalou a redação do jornal no andar superior de sua residência. Faziam parte da redação, além do defensor dos pretos, Augusto Álvares Guimarães, mais tarde, cunhado de Castro Alves. Colaboradores: Belarmino Barreto e Dr. Antônio Ferreira Garcia.

O comércio, pouco a pouco, foi tomando conta das residências antigas. Começou pelo Tabuão, ponto de ligação entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta. Funcionavam doze lojas de fazendas e três armarinhos. Casas de jóias e de calçados. Seis lojas de imagens, das dez existentes na cidade. Duas lojas de arreios e quatro de móveis, Contava, ainda, com tendas de oficiais mecânicos de profissões variadas: ourives e funileiros; entalhador, escultor, dourador, latoeiro, sapateiro. correeiro e seleiro.

Nas Portas do Carmo três lojas de calçados, duas de cera, e a botica de Leovigildo Gonçalves de Sena. No Maciel de Baixo, uma loja de louça. Duas padarias, uma no Maciel de Baixo e outra na rua do Carmo. Uma barraca de cereais e um açougue, nas Portas do Carmo. O número de tavernas passava de vinte. O Tabuão liderava com cinco, Maciel de Cima e de Baixo, sete, Portas do Carmo, três. Ordem 3ª de S. Francisco e rua das Flores, quatro, Laranjeira e Carmo, duas.. Muita baiúca ordinária. Bebia-se demasiadamente no varelo. Comércio mais tarde monopolizado pela Colónia Espanhola extinguiu-se com a introdução dos super-mercados. Não se registrava a presença do ramo de quinquilharia.

Na década de 80, o Pelourinho tornou-se um dos centros preferidos pela classe médica, para residência e consultórios. Distribuiam-se entre as Portas do Carmo e a Rua do Passo. Dentre os esculápios citam-se: Carlos Devoto. Pedro Ribeiro de Araújo e Silvino Pacheco. Na rua das Portas do Carmo habitavam: Antônio Ferrão Moniz de Aragão, vice-diretor da Instrução Pública; José Augusto de Figueiredo, provedor do Colégio dos Órfãos de S. Joaquim: Eduardo Cariqé e João Varela, escritores. Nas casas térreas, das travessas e becos, funcionários da administração. As altas figuras do comércio e da aristocracia rural já haviam esvaziado a massa de sobrados com janelas de púlpitos e grades de ferro.

A preferência para o comércio recaia na rua das Portas do Carmo. onde funcionava a loja de calçados de Manuel Moncorvo. No largo do Pelourinho, uma farmácia, para atender o receituário dos facultativos. No Maciel de Baixo, a “Loja de Livros”, de J. 6. Marlins.

O clero localizava-se na rua da Laranjeira, próximo das igrejas e do antigo prédio do Seminário São Dâmaso, na rua do Bispo.

Na década de 90, a Familia Mangabeira residia nas Portas do Carmo, n° 21, defronte do Instituto Nina Rodrigues, no sobrado em que funcionava o Colégio Santana, dirigido pela educadora Ana Emilia de Paraiso. Francisco Mangabeira, nessa quadra, começava a poetar pelos botequins e noitadas, suscitando comentários desairosos. [...]


As associações de classe, Sociedade Protetora dos Desvalidos, fundada a 16 de setembro de 1832, situada no Cruzeiro de S. Francisco, n.° 17; Clube Beneficiente dos Mártires, a 20 de janeiro de 1891; Centro Operário da Bahia, a 6 de maio de 1894, e a Sociedade Beneficienle União das Classes, a 15 de novembro de 1895, participaram da transição da área do Pelourinho, Surigiram com a finalidade de combate, de conscientização da classe operária.

As organizações deste tipo “obedecem a diversas modalidades, desde aquelas que se destinam ao auxilio mútuo até a defesa contra os inimigos da classe. porém, todas elas são simples transposições de suas congêneres européias, existindo harmonia”.