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sábado, 16 de junho de 2012

A arquitetura eclética em Salvador


Embora já existissem desde a década de 1870 alguns exemplos de reformas de edificações existentes e de construções ex-novo com características da arquitetura eclética, é somente a partir da década de 1910 que o eclético se torna a linguagem arquitetônica oficial do poder público e do poder econômico, com as mais imponentes e significativas construções de Salvador sendo objeto de reformas internas e externas, nas quais as características ligadas ao passado colonial português eram suprimidas e substituídas por uma ornamentação eclética com referências simultâneas às diversas vertentes histórico-geográficas da arquitetura européia, como o barroco francês ou o renascimento italiano.

A década de 1910 coincide também com a chegada, em Salvador, de diversos engenheiros, arquitetos e construtores estrangeiros, principalmente italianos, que vão se ocupar da construção dos novos edifícios institucionais e da renovação dos antigos palácios e sobrados coloniais, ao mesmo tempo em que erguem os palacetes da nova burguesia baiana, financiados com os recursos oriundos da atividade industrial e das plantações de fumo do Recôncavo e de cacau do sul da Bahia.

Segundo Godofredo Filho (1984, p. 15), essa renovação arquitetônica e artística se deve principalmente aos “técnicos italianos aqui chegados a partir de 1912, no 1º Governo Seabra, quando o Secretário Geral Arlindo Fragoso e, sobretudo, o Intendente Júlio Viveiros Brandão, buscaram abastecer-se em São Paulo, de arquitetos, escultores, pintores, decoradores e artesãos especializados, com o fito de mudar, como pretenderam e em parte conseguiram, a grave e tranqüila fisionomia plástica de Salvador”:

Os Chirico, os Conti, os Santoro, os Rossi, os Sercelli e tantos outros, diferentes entre si nos misteres e nos méritos, trabalharam com afinco, brindando a cidade ora de bronzes e mármores duradouros, ora de pinturas de salão mundano em igrejas austeras e, ainda, em edifícios públicos e particulares, da glace caricatural dos estuques, as grinaldas, os festões, as águias de bico voraz e asas abertas, e, até, de mulheres aladas ou de corpo natural inteiro, todas elas de seios duros e pontudos ede Dânae de Corregio, por onde se pudessem modelar, acaso, as taças cônicas das festanças inaugurais. (GODOFREDO FILHO, op. cit., p. 15)

Dentre os arquitetos, engenheiros e construtores italianos que atuaram, ainda que temporariamente, em Salvador entre as décadas de 1910 e 1920 podemos destacar: Júlio Conti, responsável pela versão original do projeto de reconstrução do Palácio Rio Branco, iniciada em 1912, pela nova Igreja da Ajuda, construída entre 1912 e 1923, e pela construção do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, também inaugurado em 1923 (PUPPI, 1998, p. 129); Alberto Borelli, que chegou a Salvador, procedente de São Paulo, em 1912 e que foi autor do projeto do Gabinete Português de Leitura, inaugurado em 1918 (ibid., p. 107); e Michele Caselli, autor do projeto original da nova Igreja de São Pedro da Piedade, datado de 1914 e não executado.

Alguns destes profissionais estavam sediados no Rio de Janeiro, onde eram bastante atuantes, tendo realizado poucas obras em Salvador, como Antonio Virzi, que elaborou, em 1914, um projeto para o novo Teatro Municipal na Praça Castro Alves e que teve apenas suas fundações concluídas; e Raphael Rebecchi, autor do pavilhão da Bahia na Exposição Internacional de 1908 no Rio de Janeiro e que executou alguns projetos em Salvador na década de 1920, tal como a sede do Banco Francês Italiano no bairro do Comércio e uma agência telegráfica no Largo da Barra (PUPPI, 1998, p. 102).

Entretanto, os dois principais projetistas italianos atuantes na Bahia neste período foram, certamente, Rossi Baptista e Filinto Santoro. Ao contrário da maioria dos projetistas anteriormente citados, que estavam sediados no Rio de Janeiro ou em São Paulo e desenvolveram esporadicamente projetos para Salvador, tanto Rossi Baptista quanto Filinto Santoro tiveram intensa atuação na capital baiana a partir da primeira metade da década de 1910 e pelo menos até o início dos anos 1920.

Rossi Baptista estava originalmente sediado no Rio de Janeiro e o primeiro projeto elaborado por ele para Salvador é o do Palacete do Comendador Bernardo Martins Catharino (1911-1912), na Rua da Graça. Paulo Ormindo de Azevedo, em seu detalhado levantamento da produção arquitetônica de Rossi Baptista em Salvador (AZEVEDO, 2006), afirma que Rossi Baptista projetou, reformou ou construiu pelo menos 32 edifícios na capital baiana entre 1911 e 1933.

Segundo Azevedo, sua atuação se concentrou basicamente em duas frentes: novos edifícios comerciais ou reformas de edifícios existentes na área consolidada da cidade, principalmente no bairro do Comércio e na Rua Chile; e novos edifícios residenciais para a burguesia em ascensão, nos bairros da expansão urbana meridional, principalmente Canela, Graça e Barra.

Dentre os seus projetos mais importantes, além do Palacete Martins Catharino, destacam-se uma outra residência construída para o mesmo cliente na Rua do Canela, nº 08 (1912), que abriga atualmente a Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA); a sede da Associação dos Empregados do Comércio (1914-1917), na esquina da Rua do Tira Chapéu com a Rua Chile, que é certamente um dos mais significativos edifícios baianos do período; o chalé construído como residência de Otávio Ariani Machado, na Rua do Canela, nº 03 (1926), que atualmente abriga a Residência Universitária Feminina da UFBA; e a antiga sede do Bank of London & South America na Rua Miguel Calmon, no Comércio (1928), que atualmente abriga um bingo (AZEVEDO, 2006, pp. 71-75).

Rossi Baptista foi ainda o responsável pelo novo projeto e pela construção da nova Igreja de São Pedro da Piedade (1916-1917), após desentendimentos entre Michele Caselli, autor do projeto original, e a Mesa da Irmandade do Santíssimo Sacramento (ALMEIDA, 2006, p. 101).


Porém, ao contrário do que afirma Paulo Ormindo de Azevedo, Rossi Baptista não foi o único projetista italiano radicado em Salvador naquele período. A partir de 1913 e pelo menos até 1920, o engenheiro napolitano Filinto Santoro não somente residiu na Bahia como foi o projetista oficial do Estado, concebendo e executando algumas das principais obras públicas da cidade de Salvador. Se no período do apogeu da arquitetura eclética na Bahia – correspondente às décadas de 1910 e 1920 – Rossi Baptista foi o projetista preferido da burguesia industrial em ascensão, desenhando e construindo as suas residências e as sedes das suas empresas, Filinto Santoro foi o projetista do poder político, responsável por diversos edifícios públicos e equipamentos urbanos produzidos em Salvador a partir de 1913 e, principalmente, durante a gestão de Antônio Ferrão Muniz de Aragão (1916-1920) à frente do Governo Estadual." 

Nivaldo Vieira de Andrade Júnior

ANDRADE JUNIOR, Nivaldo Vieira de Andrade. A Influência Italiana na Modernidade Baiana: o caráter público, urbano e monumental da arquitetura de Filinto Santoro.  19&20, Rio de Janeiro, v. I, n. 4, out. 2007. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/ad_fs_vnaj.htm>.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Salvador "Belle Époque"


"Para além de outras implicações políticas, do ponto de vista cultural e ideológico a proclamação da República em 15 de novembro de 1889 representa um passo importante em direção ao rompimento com o nosso passado lusitano, que permanecera fortemente presente durante os anos do Império. 


A negação da matriz portuguesa da nossa cultura esteve associada a uma valorização de outros modelos europeus, particularmente o francês e o italiano. Esta transformação cultural coincide com a chegada da modernidade, representada pela expansão das ferrovias, pelo início da industrialização e pelo surgimento da energia elétrica, do bonde elétrico e, já no século XX, do automóvel, de avanços tecnológicos no campo da construção civil, através da utilização de materiais como o ferro fundido e o concreto, além da substituição da mão-de-obra escrava pelo trabalho assalariado dos imigrantes italianos, espanhóis, alemães, sírio-libaneses, japoneses, polacos e ucranianos, dentre outros, que passaram a chegar às centenas a partir do último quartel do século XIX.

Do ponto de vista econômico e no caso específico da Bahia, a República Velha corresponde ao declínio da monocultura açucareira e à ascensão de novas atividades econômicas: a produção cacaueira do sul do Estado (Ilhéus, Itabuna e arredores), que representava 1,5% do valor das exportações brasileiras na década de 1890; a indústria fumageira do Recôncavo Baiano, sediada nas cidades de Maragojipe, Cachoeira, São Félix e Muritiba; e o surgimento de um parque industrial têxtil em Salvador, que contava na década de 1890 com sete fábricas, das quais quatro estavam na Península de Itapagipe (STELLING, 2003).

A República Velha corresponde ainda ao período das grandes reformas urbanas em algumas das principais cidades brasileiras, inspiradas nas radicais intervenções realizadas em Paris pelo Barão de Haussmann, prefeito da capital francesa entre 1853 e 1870. Nas reformas empreendidas pelo Prefeito Francisco Pereira Passos no Rio de Janeiro entre 1902 e 1906, dezenas de quarteirões e edifícios dos períodos colonial e imperial foram demolidos em nome do progresso e sob a justificativa de alargar as vias existentes ou de construir novas avenidas.

No caso de Salvador não foi diferente. A primeira gestão de José Joaquim Seabra à frente do Governo Estadual (1912-1916) foi marcada por obras monumentais e de grande transformação na cidade fundacional e no seu entorno, com a criação de um imenso aterro na Cidade Baixa, que incluiu a construção de um porto organizado; o alargamento de diversas ruas da Cidade Baixa; a abertura da Avenida Sete de Setembro – principal via da Cidade Alta; e a ligação da cidade à orla atlântica, através da construção da Avenida Oceânica. Estas reformas contribuíram no processo de expansão urbana já em curso; as famílias abastadas que, desde a fundação da cidade, habitavam o núcleo fundacional e seus arredores, migravam agora para os novos bairros ao sul, como Vitória, Canela, Graça e Barra.”

Nivaldo Vieira de Andrade Junior.

ANDRADE JUNIOR, Nivaldo Vieira de Andrade. A Influência Italiana na Modernidade Baiana: o caráter público, urbano e monumental da arquitetura de Filinto Santoro.  19&20, Rio de Janeiro, v. I, n. 4, out. 2007. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/ad_fs_vnaj.htm>.